Automatismo moderno
Quando colocou o último bocado em sua boca voltou a si.
Olhou para a taça e a percebeu vazia. Assustou-se com aquilo, pois tomara todo
o sorvete sem se dar conta. Sua mente estava tão ocupada com tantas coisas, que
nem sentira o sabor da sobremesa, mesmo sendo a sua preferida. Como pode sorver
toda aquela delícia sem nem mesmo perceber?
Esse incidente fez com que fizesse uma reflexão sobre sua
rotina atual. Concluíra, com grande perplexidade, que sua vida, tal qual a taça
de sorvete, escapava-lhe antes que fosse usufruída. Era como se a sua existência
não lhe pertencesse. Na maioria das vezes estava em um lugar que não escolhera
estar, antes lhe fora imposto pelas obrigações, compromissos,
responsabilidades, e tantas outras amarrações que o sistema lhe impusera. E
para quê?
Tentou responder aquela pergunta para si, mas não
conseguiu. Uma angústia invadiu de repente todo o seu ser. Descobriu-se um
simples objeto manipulado num redemoinho de exigências que, se quisesse se
manter no mercado de trabalho, deveria cumpri-las tão eficazmente quanto possível,
pois disso dependia sua permanência na posição que ocupava naquele momento.
Mas era isso o que queria realmente? Como saber se nunca
tivera tempo para refletir? Ademais, que alternativa lhe restava? Depois de
pensar por alguns momentos tomou uma decisão:
- Por favor.
- Pois não!
- Traga-me outra taça de sorvete do mesmo sabor.
Ao receber a sobremesa não quis pensar em outra coisa.
Fez questão de se concentrar enquanto saboreara cada bocado daquela gostosura.
O que faria de sua vida era algo para se pensar depois. Decidira, ali mesmo,
fazer uma coisa de cada vez. Aquele era o momento reservado para se tomar
sorvete - e nada mais.
Roberto Policiano