quarta-feira, 27 de maio de 2020

Automatismo moderno

Série: Quem você pensa que é?



Automatismo moderno



           

            Quando colocou o último bocado em sua boca voltou a si. Olhou para a taça e a percebeu vazia. Assustou-se com aquilo, pois tomara todo o sorvete sem se dar conta. Sua mente estava tão ocupada com tantas coisas, que nem sentira o sabor da sobremesa, mesmo sendo a sua preferida. Como pode sorver toda aquela delícia sem nem mesmo perceber?

            Esse incidente fez com que fizesse uma reflexão sobre sua rotina atual. Concluíra, com grande perplexidade, que sua vida, tal qual a taça de sorvete, escapava-lhe antes que fosse usufruída. Era como se a sua existência não lhe pertencesse. Na maioria das vezes estava em um lugar que não escolhera estar, antes lhe fora imposto pelas obrigações, compromissos, responsabilidades, e tantas outras amarrações que o sistema lhe impusera. E para quê?

            Tentou responder aquela pergunta para si, mas não conseguiu. Uma angústia invadiu de repente todo o seu ser. Descobriu-se um simples objeto manipulado num redemoinho de exigências que, se quisesse se manter no mercado de trabalho, deveria cumpri-las tão eficazmente quanto possível, pois disso dependia sua permanência na posição que ocupava naquele momento.

            Mas era isso o que queria realmente? Como saber se nunca tivera tempo para refletir? Ademais, que alternativa lhe restava? Depois de pensar por alguns momentos tomou uma decisão:

            - Por favor.

            - Pois não!

            - Traga-me outra taça de sorvete do mesmo sabor.

            Ao receber a sobremesa não quis pensar em outra coisa. Fez questão de se concentrar enquanto saboreara cada bocado daquela gostosura. O que faria de sua vida era algo para se pensar depois. Decidira, ali mesmo, fazer uma coisa de cada vez. Aquele era o momento reservado para se tomar sorvete - e nada mais.

Roberto Policiano

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Retornos

Série: Psicologicamente poético


Retornos



Quando partires

Não feches a cara

Nem batas a porta.

Jamais desdenhes do que fica,

Tampouco desfaças daqueles que permanecerem.

Quanto partires

Deixe um sorriso;

Um abraço apertado;

Um beijo no rosto;

Um aperto de mão;

E muitas saudades.

Pois, na estrada da vida,

Há curvas e retas;

Aclives e declives;

Bifurcações e cruzamentos;

Pontes e viadutos;

E, muitas vezes, retornos.


Roberto Policiano

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Pai e Filho

Série: Quem você pensa que é?



Pai e filho

                       

            Pai - Filho sente-se um pouco aqui, por favor. Já não é a primeira vez que você tem perdido as aulas de inglês. Eu sei que pode parecer cansativo, mas é para o seu bem, pode ter certeza disso. Você tem negligenciado as aulas de informática também. Hoje em dia quem não souber inglês nem informática está fora do mercado de trabalho. É o seu futuro que está em jogo, meu filho.

            Filho – Mas pai eu...

            Pai – Por favor, não me interrompa. Ouça com atenção o que tenho a lhe dizer. Por que você insiste em faltar ao curso de técnicas administrativas?  Minha intenção é prepará-lo para ser um grande homem. Todos estes cursos têm um alto custo. É um grande investimento que estou fazendo para o seu benefício. Você sabe que eu tenho trabalhado muito para dar à nossa família uma vida digna. Muitas vezes tenho permanecido no escritório até altas horas da madrugada. Não é raro eu passar fins de semana em viagens de negócios. Mesmo assim tenho participado de vários cursos a fim de atualizar meus conhecimentos. Praticamente sou obrigado a frequentar seminários, seja como ouvinte ou como palestrante, a fim de me manter inserido no mundo dos negócios. Embora tudo isso seja cansativo, me esforço para o bem de todos nós. Quantas vezes eu, embora tenha saudades de vocês, abro mão de estar em suas companhias para garantir um futuro melhor para todos e ...

            Filho – Posso fazer uma pergunta?

            Pai – Espera só mais um pouquinho, por favor.

            Filho – Mas é uma pergunta muito importante.

            Pai – Tudo bem, meu filho, pode fazer a pergunta.

            Filho – Pai, o senhor é feliz com a vida que leva?

            Pai – Bem; esta pergunta é difícil de responder.

            Filho – Posso fazer mais uma pergunta?

            Pai – Claro que pode meu filho.

            Filho – O senhor me ama?

            Pai – Evidentemente que sim!

            Filho – Então porque o senhor quer que eu tenha a mesma vida que o senhor tem hoje?


Roberto Policiano

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Pingos

Série: psicologicamente poético



Pingos



D

E



P

I

N

G

O



E

M



P

I

N

G

O

Enche-se a bacia.

Só nos resta decidir

O que fazer com a água.

Onde se lava o rosto

Lava-se também os pés;

Só é preciso escolher

A sequência certa.

E a água barrenta?

Não a jogue fora,

Pois ela alimenta

Exuberante flora.

A bacia, depois de lavada,

Volta, em novo ciclo,

A guardar os pingos

Da nova jornada;

Assim como um circo

Sempre se remonta

A cada temporada.

E se a bacia fura?

Não serve mais para nada?

Ela ainda tem cura

Se for remendada.

E se o rombo for grande?

Enche-a de terra, semeie,

E aguarde a florada!

Ou, se preferir,

Plante só tempero,

Que vai lhe servir

Para o ano inteiro!

Se escolher cebola,

Vai fazer chorar

Quando for cortada.

Mas, por outro lado,

Vai deixar seu prato

Mais elaborado.

E como se desfaz

Da união ardente

Entre a cebola e o bafo?

Muna-se de uma pena,

E, num desabafo,

Teça seu poema!

Roberto Policiano