quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Súplica

Série: Psicologicamente poético



Súplica



 Por favor,

Senta-te aqui ao meu lado.

Deixe-me encontrar em teus abraços

O meu porto seguro.



Acaricia-me ternamente

E arranque de minhas entranhas

Este meu medo do escuro.

Roberto Policiano

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Feijões

Série: Quem você pensa que é?


Feijões





Quando dona Naná ia escolher feijões, todos já sabiam e abriam espaço para ela trabalhar tranquila. A mesa era limpa e desinfetada em toda a sua extensão, pois era ali que os grãos passariam por uma rigorosa escolha.

Depois de enxaguar e secar a embalagem muito bem, as sementes eram despejadas cuidadosamente numa vasilha. Outro recipiente era colocado ao lado direito para receber os grãos selecionados.

Após sintonizar o rádio em sua estação preferida, a cozinheira colocava uma almofada na cadeira e, ajeitando-se confortavelmente, começava a pegar cada unidade de feijão a fim de fazer uma verdadeira varredura em toda a superfície dele com o objetivo de achar qualquer mácula que o eliminasse como comestível. Se passasse pela inspeção era colocado no espaço dos aprovados. O processo se repetia até o último elemento. A parte rejeitada era descartada imediatamente, ao passo que os selecionados passavam por uma lavagem minuciosa e eram deixados de molho por um período de tempo.

Enquanto isso os temperos eram preparados com o mesmo cuidado. A panela de pressão já estava com a quantidade de água suficiente e na temperatura exata quando os feijões escorridos e os condimentos eram colocados ali e deixados a esquentar até que levantasse fervura. Então a panela era fechada e o alimento cozido.

O aroma invadia todo o recanto da casa e traziam todos à mesa. As expressões dos comensais indicavam a satisfação dos convidados. O assunto girava em torno da qualidade e do sabor daquela delícia feita com tanto capricho.

Em outra casa, não muito longe do local, feijões também fervilhavam numa panela de pressão. Nesse caso, porém, a cozinheira estava revoltada com a quantidade de sujeira que teve de retirar ao preparar a refeição. ‘Aquilo era um desperdício, ou melhor, um roubo’, esbravejava a mulher. Há muito ela desconfiava de que todo aquele 'lixo' era colocado propositadamente para diminuir a quantidade do produto, tanto é que, previdente como se achava, passou a guardar “a prova do roubo” para mostrar a quem quisesse. O que ela não percebia é que ninguém queria ver ou ouvir a respeito.

Seu feijão, com respeito à qualidade e ao sabor, nada ficava a dever ao primeiro. Aliás - só para ficar registrado - as duas senhoras compravam o produto do mesmo fornecedor e no mesmo lugar, de modo que eram os mesmos. Embora delicioso, não havia prazer em degustar o alimento, tanta era a ênfase à escória que se achava na embalagem.

Roberto Policiano

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Ser no mundo

Série: Psicologicamente poético


Ser no mundo





Eis que me apresento

Diante de pessoas de todas as idades

Para dizer que a vida

Nada é mais do que aprender

A festejar e a sofrer,

O que não é novidade.



Confesso que, vivendo,

Fiz vários papeis de tolo

E, algumas vezes, de esperto.

Com isso fui aprendendo

Que a vida é como um jogo,

Cujo desfecho é incerto.



Já elevei a minha voz

Quando devia amainá-la,

E calei-me assustado

No momento de usá-la.

No entanto, para meu alento,

Já disse a palavra certa

E na medida correta,

Extirpando de vez um lamento.



Carrego uma mágoa comigo

Que não dá para evadir:

Quando eu devia ser amigo

Equivoquei-me e agredi.

Porém, já emprestei os meus ombros,

Já estendi os meus braços,

Recuperei de escombros

E confortei em abraços.



Quando achei que era forte

E que suportaria tudo,

Uma brisa, vinda do Norte,

Deixou-me prostrado e mudo.

Por outro lado, em minha fraqueza,

Quando achei que acabaria mal,

Resisti, como a uma fortaleza,

A fúria de um vendaval.



Hoje, das coisas que ouço,

Há palavra que me afaga

E expressão que me dói.

E, para ser franco e aberto,

Algumas vezes acerto,

Em muitas, porém, eu me engano.



Agora, finalizando, confesso:

Eu não sou bandido e nem herói,

Sou simplesmente humano.

Roberto Policiano

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Cara a cara

Série: Quem você pensa que é?


Cara a cara



                       

            Acordou com uma sensação estranha. Parecia que lhe faltava alguma coisa, embora não soubesse o quê. Enquanto a água morna do banho percorria seu corpo, sentiu um vazio incomum. Isso fez com que pensasse:

            - O que é isso?

            À mesa, enquanto comia apressadamente - como fazia todos os dias - percebera que levara consigo aquele sentimento estranho.

            Antes de sair foi até o espelho do quarto para inspecionar sua aparência. Assustou-se com o que viu. Sua imagem estava com os braços cruzados e uma cara desse tamanho. Antes de se recuperar da surpresa, ouviu sua imagem dizer:

            - Sabe o que é essa sensação de vazio?

            Olhou para trás a fim de encontrar quem lhe dirigia a palavra.

            - Sou eu mesma que estou falando - a sua própria imagem.

            - Mas, como?

            - Como isso aconteceu não importa nada aqui, mas, sim, por que isso aconteceu.

            - O que você - ou eu - sei lá, quer dizer com isso? O que está acontecendo comigo? Estou falando com minha própria imagem?

            Examinou cuidadosamente em volta do espelho pensando tratar-se de um truque.

            - Como sempre você não quer acreditar, não é verdade?

            - Mas o que está acontecendo aqui?

            - Se tiver um pouco de paciência posso lhe explicar.

            - Que paciência que nada, preciso correr para não me atrasar.

            - Esse é o seu problema. Vive correndo tanto que nem tem mais tempo para você. Esse vazio que lhe incomoda é saudade. E sabe de quem? De sua própria pessoa! Pare e pense um pouco, só um pouco, por favor. Aonde chegará com essa pressa? Faça uma reflexão e contabilize - se conseguir - quanto tempo tem reservado para si. Sua ocupação é tanta, seus compromissos são tantos, tem corrido tanto para...

            - Sinto muito, mas não posso esperar mais. Outro dia a gente conversa.

            Saiu correndo para não perder a hora. Nem reparou nas lágrimas que rolaram na face de sua própria imagem.

Roberto Policiano

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Pedido de Perdão

Série: Psicologicamente poético



Pedido de perdão





Perdão, amor,

Eu tentei de tudo,

Mas não consegui.

Mudei meus hábitos;

Resguardei-me de excessos;

Segui a cartilha de uma vida regrada;

Fugi da carne vermelha;

Abri mão das delícias fritas;

Aboli as bebidas alcoólicas de minha vida;

Passo longe de refrigerantes;

Comidas congeladas nem pensar!

Optei pelas saladas cruas;

Roo cenouras diariamente;

Virei as costas para o pastel;

Não como mais pão branco pela manhã,

Apenas torradas com azeite;

Carnes só brancas:

Cozidas, grelhadas, ou, no máximo, na chapa;

Aderi aos grãos e às fibras;

Troquei o barzinho pela academia

E treino duas horas todos os dias;

Só saio ao sol antes das nove

Ou depois das dezessete

E sempre besuntado

Com bloqueador oitenta;

Durmo e acordo cedo;

Pratico sempre exercícios matinais;

Só tomo água mineral,

No mínimo dois litros por dia;

Recorro ao silêncio e à calmaria;

Tomo banho de sais

E beneficio-me da aromaterapia;

Obedeci a tudo que os mestres ensinam;

Fiz tudo que me foi possível,

Mas não consegui.

Perdão, amor,

Eu envelheci!

Roberto Policiano