quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Fio da vida

Série: Psicologicamente poético



Fio da Vida





Onde está o fio da vida?

Está no tempo e no espaço;

Nos fatos e artefatos.

No planeta, Continentes ou nas ilhas;

Nos países, nos Estados ou províncias;

Nas cidades, vilas ou vilarejos;

Nos bairros, ruas ou vielas.

Nas coisas que se encontram

Ao dispor pelo caminho.

Nas pessoas que estavam,

Que chegaram e que se foram.

Nos costumes e nas crenças

Passadas e repassadas.

Nas escolas e nos templos.

Nas ciências e na natureza.

No lazer, esporte ou cultura.

No amor, ódio, inveja ou perdão.

No serviço e na profissão.

Na escolha e na rejeição.

Minha vida eu mesmo a teço

Com as minhas próprias mãos.


                                                          Roberto Policiano

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Pingo

Série: Quem você pensa que é?



Pingo



                       

            Cinco horas da manhã, como fazia parte de sua rotina, foi até o banho. O jato de água morna em sua cabeça deu-lhe uma sensação de bem-estar. Sorriu, mas sua alegria durou pouco. Um pingo de água gelada bateu em sua testa. Depois um segundo e um terceiro. E, para seu desgosto, a cada três segundos aquela experiência se repetia. Saiu de debaixo do chuveiro o mais rápido que pôde a fim de evitar aquela sensação desagradável. O bom humor com que acordara se dissipou com o ocorrido. Preparou-se para o trabalho com a cara fechada e um bico desse tamanho. Nem o trânsito fluindo rapidamente foi suficiente para acalmar seus ânimos.

            Ao chegar ao escritório a recepção foi com sorrisos e cumprimentos amigáveis, que foi retribuído do mesmo modo. Quando finalmente entrou em sua sala e se preparava para mais um dia de rotina, o incidente da manhã voltou a tomar conta de seus pensamentos, mas não por muito tempo. De repente pôs-se a refletir sobre o que aconteceu e a sua reação. Havia uma cachoeira de água morna que caía do chuveiro, porém apenas alguns pingos de água gelada. Mas aquelas poucas gotas tiveram o poder de neutralizar a torrente quentinha, a ponto de causar-lhe aborrecimento.

            - Se a minha concentração permanecesse na água morna – raciocinou - aqueles pingos não causariam nenhum efeito, mas quem consegue fazer isso?

            Acreditava que qualquer pessoa, independentemente de sua procedência, se incomodaria com aquelas poucas gotas de água gelada e não levaria em conta as centenas de pingos mornos.

            Sorriu – agora já conseguia sorrir – ao lembrar-se de sua reação.

            Quantas vezes – pensou - não cometemos esse mesmo erro na vida, não só na hora do banho, mas em qualquer situação? Temos a tendência de focalizarmos no que é desagradável na vida enquanto uma infinidade de coisas boas está acontecendo. É como se ficássemos cegos e surdos por tudo de bom que recebemos para direcionar toda a atenção para algo que - na maioria das vezes - nem é tão importante assim. Não nos contentamos com noventa e nove por cento, queremos tudo, mesmo sabendo que quase nunca é possível isso. Se tão somente parássemos para pensar! Com toda a certeza seríamos bem mais felizes.          Determinou a si mesmo dar atenção especial a esse assunto.

            Trinta minutos depois a copeira entrou com o seu lanche que, como sempre, estava caprichado. Um delicioso pão ainda quentinho, salpicado de queijo ralado tostado e um magnífico recheio, que seria regado com um suco natural de laranja. Deu a primeira mordida no alimento e descobriu que o sabor estava melhor do que o visual. Já a bebida decepcionou, visto que a temperatura dela não estava agradável. Quis se estressar, mas lembrou-se do pingo gelado.

            - Concentre-se no lanche, disse para si, e continuou, se o suco não está gelado o suficiente é só colocar gelo.

            Pegou o telefone para chamar a copeira, mas antes de ligar ouviu uma batida na porta.

            - Pode entrar.

            - Desculpe-me, mas esqueci do gelo de seu suco. Aqui está ele.

            - Agradeço muito pela sua atenção, disse numa voz amigável.

            Depois de acertar a temperatura da bebida ao seu gosto, tomou um bocado e, antes de dar outra mordida no lanche, fez questão de prestar atenção ao sabor agradável da bebida gelada.

            - Foi tão simples a solução, pensou, porque não fazemos isso sempre?


                                                                  Roberto Policiano

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Excursão

Série: Psicologicamente poético


Excursão





Vida;

Já chegou a hora;

Tenho a bagagem;

Em tuas entranhas

Excursionarei.



Para onde irei

Tenho alguns palpites,

Mas não faço ideia

Aonde chegarei.



Acredito

Que farei o trajeto

De muitas maneiras.

Quais? Eu não sei!



Posso ir a galope;

Outro trecho a trote;

Levantar um voo;

Mergulhar, talvez.



Deslizar sobre o vento;

Planar entre as nuvens;

Singrar pelas águas

De um mar bravio.



Ou, em um barco a remo,

Sem nenhuma pressa,

Eu siga o meu rumo

Em tempos serenos.

Sei que tal quietude

Pode ser quebrada

Pela cachoeira

Na curva do rio.



Se me restarem forças

Usarei meus braços.

Pode ser que eu vença

Ou que me desfaça.



Posso seguir andando,

Correndo, quem sabe?

Talvez me arrastando

Teimando em viver.



Nesta trilha incerta

Que percorrerei,

Uma coisa é certa:

O que será - não sei!

                                                      Roberto Policiano

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Vida

Série: Quem você pensa que é?


Vida



                       

            O menino passeava em sua bicicleta na ciclovia do parque quando deparou com um ciclista que vinha em sentido oposto. Chamaram-lhe sua atenção os seguintes dizeres que havia na camiseta do outro:

            A vida é ...

            Assim que o atleta passou por ele, o menino virou a cabeça imediatamente e percebeu que na parte de trás da camiseta estava a continuação da frase. O garoto desceu imediatamente da bicicleta, virou-a na direção oposta, montou-a novamente e pedalou o mais rápido que conseguiu. Depois de rodar por alguns minutos, desistiu de cansaço. Foi então que teve a ideia de virar-se novamente, pois assim encontraria o outro mais rápido.

            Cerca de três minutos depois os dois se cruzaram pela segunda vez. O menino só esqueceu que o encontro seria na mesma posição anterior, de modo que só pode ler o que já conhecia. Antes de desanimar, no entanto, mudou novamente de sentido e continuou a pedalar normalmente.

            - Quando ele passar de novo talvez eu consiga ler os dizeres nas costas da sua camiseta, pensou.

            O plano foi perfeito, mas o que o menino não sabia é que aquela era a última volta do outro ciclista, o que ele descobriu quando ele deu uma volta completa na ciclovia sem encontrá-lo.

            Aquela frase havia atiçado a curiosidade do garoto, de modo que, assim que chegou a casa, guardou sua bicicleta no lugar apropriado e informou a sua mãe que iria visitar o avô.

            Depois de cumprimentar os avós com abraços e beijos, como sempre fazia, disse:

            - Vovô Róbson, eu preciso da ajuda do senhor.

            - Vamos até a sala onde poderemos conversar melhor.

            Após se acomodar em sua poltrona preferida o ancião dirigiu-se ao neto:

            - E então Paulo Henrique, em que posso ajudá-lo?

            - Vovô o que é a vida?

            O senhor se maravilhou com a pergunta. Como pode uma criança de apenas nove anos de idade se preocupar com isso?

            - Uma pergunta muito interessante, Paulo Henrique. Desde quando você pensa nisso?

            - Desde hoje quando eu vi uma camiseta onde estava escrito: “A vida é ...” na parte da frente, mas não consegui ler a resposta que estava na parte de trás. Fiquei curioso e pensei que o senhor poderia saber a resposta.

            - Compreendo perfeitamente. Vá até a escrivaninha, por favor, e me traga duas folhas de papel.

            - Pois não.

            De posse das folhas o ancião ficou com uma e deixou a outra com o neto.

            - Pegue o lado do papel e junte-o com o outro lado da folha.

            - Pronto vovô. E agora, o que faço?

            - Faça a mesma coisa, agora com o lado maior.

            - Desse jeito?

            - Isso mesmo. Agora pegue um dos cantos do papel e junte-o ao canto oposto da outra ponta.

            - Devo cruzar na diagonal?

            - Muito bem, é isso que eu quero.

            - Olha como ficou.

            - Perfeito, Paulo Henrique. Agora faça o mesmo com os outros dois cantos.

            - Ficou parecido, vovô.

            - Parecido, mas não idêntico.

            - O que faço agora?

            - Faça um canudo pelo lado mais comprido.

            - Veja vovô; consigo enxergar o senhor pelo canudo.

            - Parece com uma luneta. Agora faça um canudo mais curto.

            - É só enrolar a folha pelo lado menor. Pronto vovô. Continuou uma luneta, só que menor.

            - Agora imagine alguma coisa diferente que pode ser feito com a folha.

            - Já sei! Vou fazer um canudo enrolando a folha na diagonal. Olha vovô, ficou um canudo maior do que o primeiro.

           -Percebeu quantas coisas diferentes foi possível fazer com a mesma folha de papel?

            - Percebi sim, e foi muito divertido.

            - Pois então, Paulo Henrique, isso ajuda a responder a sua pergunta?

            - Como assim, vovô? Não entendi nada!

            - A vida, como a folha de papel, é bastante flexível. Podemos fazer dela o que bem entendermos.

            - Continuo não compreendendo, vovô.

          - A vida será aquilo que fizermos dela, essa é a lição que podemos aprender da folha de papel. Por exemplo, quem encarar a vida como sendo uma droga, é exatamente isso que ela se tornará. Por outro lado, quem achar que ela é uma aventura, a vida será - para essa pessoa - isso mesmo. Se alguém encará-la como algo alegre, ela será simplesmente isso. Para os que a encaram como enfadonha, ela jamais será excitante. Assim, Paulo Henrique, a vida será do modo como a encararmos e não há nenhuma possibilidade de ela ser diferente a não ser que mudamos o nosso modo de enxergá-la. Onde está sua folha de papel?

            - Está aqui, vovô.

            - Amasse-a o tanto que você conseguir e depois a aperte bem.

            - Ficou como uma bolinha.

            - Abra a folha novamente e tente alisá-la.

            - Não consigo. A folha ficou um lixo.

            - Exatamente, Paulo Henrique, esta é a palavra certa – lixo. Assim, se encararmos a vida como tal, ela não será algo diferente. Conseguiu entender o que pretendi mostrá-lo?

            - Mais ou menos, vovô.

            - Então vamos lá. Responda-me o que é a vida.

            - Pelo que eu entendi, não existe uma resposta única. É isso?

            - É isso mesmo. E quem vai definir se a vida será boa ou ruim?

            - Pelo que o senhor me falou é a própria pessoa.

            - Muito bem! Podemos dizer então, sem sombra de dúvida, que cada um de nós é responsável pelo resultado da própria vida.

            - Será que era isso que estava escrito na camiseta daquele homem?

            - Talvez ele volte por lá.

            - Boa ideia! Amanhã voltarei ao parque. Obrigado, vovô.

            - Por nada, Paulo Henrique, por nada.

            - O que faço com esta folha amassada, vovô?

            - Faça com ela o que você quiser.

            - Até mais, vovô.

            - Só mais uma coisinha, por favor.

            - Sim, vovô.

            - Quero que leve essa folha de papel nova.

            - O que o senhor quer que eu faça com ela?

          - Quero que a guarde como recordação da conversa que tivemos. Nunca se esqueça de que o resultado da sua vida está em suas mãos.

Roberto Policiano