Série: Quem você pensa que é?
Vida
O menino passeava em sua bicicleta na ciclovia do parque
quando deparou com um ciclista que vinha em sentido oposto. Chamaram-lhe sua
atenção os seguintes dizeres que havia na camiseta do outro:
A vida é ...
Assim que o atleta passou por ele, o menino virou a
cabeça imediatamente e percebeu que na parte de trás da camiseta estava a
continuação da frase. O garoto desceu imediatamente da bicicleta, virou-a na
direção oposta, montou-a novamente e pedalou o mais rápido que conseguiu. Depois
de rodar por alguns minutos, desistiu de cansaço. Foi então que teve a ideia de
virar-se novamente, pois assim encontraria o outro mais rápido.
Cerca de três minutos depois os dois se cruzaram pela
segunda vez. O menino só esqueceu que o encontro seria na mesma posição
anterior, de modo que só pode ler o que já conhecia. Antes de desanimar, no
entanto, mudou novamente de sentido e continuou a pedalar normalmente.
- Quando ele passar de novo talvez eu consiga ler os
dizeres nas costas da sua camiseta, pensou.
O plano foi perfeito, mas o que o menino não sabia é que
aquela era a última volta do outro ciclista, o que ele descobriu quando ele deu
uma volta completa na ciclovia sem encontrá-lo.
Aquela frase havia atiçado a curiosidade do garoto, de
modo que, assim que chegou a casa, guardou sua bicicleta no lugar apropriado e
informou a sua mãe que iria visitar o avô.
Depois de cumprimentar os avós com abraços e beijos, como
sempre fazia, disse:
- Vovô Róbson, eu preciso da ajuda do senhor.
- Vamos até a sala onde poderemos conversar melhor.
Após se acomodar em sua poltrona preferida o ancião
dirigiu-se ao neto:
- E então Paulo Henrique, em que posso ajudá-lo?
- Vovô o que é a vida?
O senhor se maravilhou com a pergunta. Como pode uma
criança de apenas nove anos de idade se preocupar com isso?
- Uma pergunta muito interessante, Paulo Henrique. Desde
quando você pensa nisso?
- Desde hoje quando eu vi uma camiseta onde estava
escrito: “A vida é ...” na parte da frente, mas não consegui ler a resposta que
estava na parte de trás. Fiquei curioso e pensei que o senhor poderia saber a
resposta.
- Compreendo perfeitamente. Vá até a escrivaninha, por
favor, e me traga duas folhas de papel.
- Pois não.
De posse das folhas o ancião ficou com uma e deixou a
outra com o neto.
- Pegue o lado do papel e junte-o com o outro lado da folha.
- Pronto vovô. E agora, o que faço?
- Faça a mesma coisa, agora com o lado maior.
- Desse jeito?
- Isso mesmo. Agora pegue um dos cantos do papel e
junte-o ao canto oposto da outra ponta.
- Devo cruzar na diagonal?
- Muito bem, é isso que eu quero.
- Olha como ficou.
- Perfeito, Paulo Henrique. Agora faça o mesmo com os
outros dois cantos.
- Ficou parecido, vovô.
- Parecido, mas não idêntico.
- O que faço agora?
- Faça um canudo pelo lado mais comprido.
- Veja vovô; consigo enxergar o senhor pelo canudo.
- Parece com uma luneta. Agora faça um canudo mais curto.
- É só enrolar a folha pelo lado menor. Pronto vovô.
Continuou uma luneta, só que menor.
- Agora imagine alguma coisa diferente que pode ser feito
com a folha.
- Já sei! Vou fazer um canudo enrolando a folha na
diagonal. Olha vovô, ficou um canudo maior do que o primeiro.
-Percebeu quantas coisas diferentes foi possível fazer
com a mesma folha de papel?
- Percebi sim, e foi muito divertido.
- Pois então, Paulo Henrique, isso ajuda a responder a
sua pergunta?
- Como assim, vovô? Não entendi nada!
- A vida, como a folha de papel, é bastante flexível.
Podemos fazer dela o que bem entendermos.
- Continuo não compreendendo, vovô.
- A vida será aquilo que fizermos dela, essa é a lição
que podemos aprender da folha de papel. Por exemplo, quem encarar a vida como
sendo uma droga, é exatamente isso que ela se tornará. Por outro lado, quem
achar que ela é uma aventura, a vida será - para essa pessoa - isso mesmo. Se
alguém encará-la como algo alegre, ela será simplesmente isso. Para os que a
encaram como enfadonha, ela jamais será excitante. Assim, Paulo Henrique, a
vida será do modo como a encararmos e não há nenhuma possibilidade de ela ser
diferente a não ser que mudamos o nosso modo de enxergá-la. Onde está sua folha
de papel?
- Está aqui, vovô.
- Amasse-a o tanto que você conseguir e depois a aperte
bem.
- Ficou como uma bolinha.
- Abra a folha novamente e tente alisá-la.
- Não consigo. A folha ficou um lixo.
- Exatamente, Paulo Henrique, esta é a palavra certa –
lixo. Assim, se encararmos a vida como tal, ela não será algo diferente.
Conseguiu entender o que pretendi mostrá-lo?
- Mais ou menos, vovô.
- Então vamos lá. Responda-me o que é a vida.
- Pelo que eu entendi, não existe uma resposta única. É
isso?
- É isso mesmo. E quem vai definir se a vida será boa ou
ruim?
- Pelo que o senhor me falou é a própria pessoa.
- Muito bem! Podemos dizer então, sem sombra de dúvida, que
cada um de nós é responsável pelo resultado da própria vida.
- Será que era isso que estava escrito na camiseta
daquele homem?
- Talvez ele volte por lá.
- Boa ideia! Amanhã voltarei ao parque. Obrigado, vovô.
- Por nada, Paulo Henrique, por nada.
- O que faço com esta folha amassada, vovô?
- Faça com ela o que você quiser.
- Até mais, vovô.
- Só mais uma coisinha, por favor.
- Sim, vovô.
- Quero que leve essa folha de papel nova.
- O que o senhor quer que eu faça com ela?
- Quero que a guarde como recordação da conversa que
tivemos. Nunca se esqueça de que o resultado da sua vida está em suas mãos.
Roberto Policiano