quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Marcão

 Série: quem você pensa que é?


Marcão

 

  - Lá vem um, Marcão. Vamos começar a trabalhar.

- Deixa esse comigo. Fica só na cobertura. Vou deixar o cara passar do poste, onde está mais escuro.

- Toma cuidado!

- Se liga, mermão. Fui eu que  ensinei as manhas pra você.

- Vai que ele é todo seu.

...

- Escuta aqui, ô meu. Vai passando...

- Marcão! Que surpresa! Ainda ontem estive conversando com a turma a seu respeito.

- Turma? Que turma?

- A turma do colégio. O Chiquinho, o Moita, o Ditão, a Magali, a Silvinha, a Bentinha e o Neguinho. Depois chegou a Tathi e o Pingo. Numa certa altura da conversa alguém lembrou do dia em que você ganhou a Ritinha, a garota mais cobiçada do colégio. Lembra-se disso? Foi a maior zoeira, cara! O Paulão, que também estava a fim da mina, quis tirar uma com você. Mano, nunca vi ninguém apanhar tanto! Você deu tanto peteleco nele que o malandro ficou duas semanas sem aparecer por lá e, quando voltou, veio mais afinado que viola de serenata. Você foi demais naquele dia! E o dia em que o professor Eustáquio colocou aquele exercício na lousa e desafiou a turma a resolvê-lo? Ele ofereceu três pontos, mas ninguém topou. Aí você chegou e, ao ficar sabendo da treta, pegou o giz e fez aquela conta que ocupou metade da lousa. Cara, como o professor o elogiou! Pois é, você sumiu da área, mermão. Onde você tem andado, mano?

- Bem, negócios. Sabe como é a vida. A gente luta daqui, peleja dali, e vai tocando como pode.

- Aparece lá no pedaço. A turma vai ficar feliz com sua presença. Lembra-se do Geninho?

- Sei.

- Sábado ele vai dar um churrasco na casa dele. Ele ainda mora no mesmo lugar. Você ainda se lembra onde é?

- Claro que me lembro.

- Vê se consegue dar uma chegada por lá. A turma vai fazer a maior festa quanto ver você.

- Vou fazer uma forcinha e ir.

- Preciso ir agora que estou um pouco atrasado. Venha cá, deixa em dar um abraço apertado. Isso mesmo. Até mais amigão, estaremos esperando por você no sábado.

- Pode esperar que eu chego por lá.

- Até lá!

- Até!

...

- Que aconteceu, Marcão? Quem era aquele cara?

- Um colega meu do tempo do colégio.

- Pô, Marcão, você nunca estudou. O cara enrolou você, meu. Vamos atrás dele que ainda dá tempo de alcançá-lo.

- Não. Deixa o meu amigo ir embora em paz.

- Acorda, Marcão, o cara nunca foi seu amigo. Ele deu um ‘H’ em você.

- Se ele não foi meu amigo antes, foi agora. Ele me fez sentir gente. De repente eu ganhei uma turma, estudei num colégio, ganhei a Ritinha, dei uma surra num tal de Paulão e ainda venci um desafio de um professor. Além do mais, tem uma turma me esperando pra fazer a maior festa! Esse meu amigo, que eu nem sei o seu nome, me deu um passado brilhante e um abraço tão apertado que eu não me lembro de ter recebido um igual a esse.

- Se liga, meu irmão, cai na real.

- Tô ligado! É isso mesmo que eu vou fazer. Quem sabe um dia eu encontro a Ritinha? Adeus.

- Aonde você vai, Marcão?

- Mudar de vida. Quero ser o outro Marcão.



Roberto Policiano


quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Consequências

 Série: Psicologicamente poético


Consequências

 

 Fugiu de medo?

Não conquistou.

Não tem segredo

Quem não guardou.



Roberto Policiano

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Coador

 Série: Quem você pensa que é?


Coador

 

 

Era domingo. A mulher queria dormir um pouco mais, mas seus filhos ficaram em volta dela na cama, pedindo para ela se levantar. Para ganhar mais um tempinho no leito, a mãe negociou dizendo que levantaria se alguém levasse café para ela. Continuando deitada, passou orientações para que seus rebentos conseguissem preparar a bebida. Primeiro pediu que um deles pusesse água para ferver. A criança perguntou:

- Mas como é que se faz isso?

E a mãe ensinou no estilo passo-a-passo.

- Pegue a chaleira, tire a tampa, coloque-a debaixo da torneira, abre-a para cair água, feche-a, coloque novamente a tampa, ponha a chaleira no fogão, pegue a caixa de fósforo, tire um palito, risque do lado da caixa, vire o botão da boca do fogão, encoste o fogo na boca do fogão para acender.

A cria correu e executou seu trabalho com sucesso e voltou para a cama da mãe. Outra criança recebeu as próximas orientações:

- Pegue o mancebo e ...

- O que é mancebo?

- É onde se coloca o coador.

- Eu sei o que é - disse a irmã mais velha.

- Então vai você - respondeu a matriarca.

- Oba! - Exultou quem se livrou da tarefa.

- Oba coisa nenhuma - retrucou a mãe - você vai com ela para aprender. Depois de pegar o mancebo acha o bule e ...

- Eu pego o mancebo e ele acha o bule - sugeriu a menininha.

- Nada mais justo, assim cada um faz uma coisa - respondeu a mulher.

 Embora a matriarca fingisse não ver, observou o filho olhar emburrado para a irmã e dar um leve empurrão no braço dela, que retrucou por mostrar-lhe a língua.

Depois das missões cumpridas os dois voltaram para o lado da mestra, que passou as orientações seguintes para outra criança – esclarecimento: ela tinha muitos filhos.

- Agora você vai até a cozinha e coloque o bule dentro do mancebo.

Essa última ‘foi num pé e voltou no outro’. Como era bom ficar ao lado da mamãe! Principalmente porque ela trabalhava fora e só podia ficar rodeada de filhos aos domingos.

- Você - disse a mãe apontando para uma criança que ainda não havia dado sua contribuição - vai até lá e enfie o coador no mancebo.

Quando esta retornou e informou que fizera o trabalho, veio a próxima instrução para outro filho.

- Agora é a sua vez. Coloque três colheres de pó de café dentro do coador e fique esperando até começar a sair fumaça da chaleira.

Essa tarefa demorou um pouco mais para ser executada, mas, por fim, a criança retornou informando que a água já estava fervendo.

- Preste atenção que agora é você que vai. - Disse a mãe chacoalhando levemente o braço direito de um de seus rebentos - Pegue a chaleira e coloque água no coador. Quando esvaziar coloque água de novo. Repita isso até quase encher o bule de café. Depois coloque dez colheres de açúcar, mexe bem, e traz um pouco no copo para eu experimentar se está bom de doce. Mas tome muito cuidado, porque a água está fervendo e se cair em você vai queimar sua pele, doer muito, vamos ter que levar você ao hospital e o médico vai aplicar eu seu bumbum uma injeção deste tamanho!

E para mostrar de que tamanho seria a injeção, ela abriu bem os braços, deixando a criança com os olhos tão arregalados que ficaram desse tamanho! Nada podia ser tão convincente, pois o rebento foi cumprir sua obrigação com todo o cuidado que conseguiu arranjar.

Chegando à cozinha pegou a chaleira e despejou água no coador até enchê-lo e esperou. Mas o coador era de pano e o nível da água descia bem devagarzinho, e quem cumpria a tarefa estava com mais pressa do que o café, que caia preguiçoso na ponta debaixo fazendo um fiozinho bem fininho da bebida.

Depois de pensar por alguns segundos tentando achar uma via de escape para o café e, principalmente para si, a criança teve a ideia de ordenhar o coador, mas, lembrando-se do alerta que recebera e do tamanho da injeção, pôs sua mão com cautela em volta do coador fervente e, como percebeu o calor, retirou-a imediatamente. Esperou por mais alguns demorados segundos. Sua impaciência foi maior do que o seu medo, assim, apertou novamente o coador rapidamente, largando-o sem seguida. Como sobrevivera e, embora a mão esquentasse consideravelmente, pôde suportar a quentura, repetiu o gesto algumas vezes. Conforme ia ganhando coragem, o aperto da ordenha demorava um pouco mais. Sua mão ficou bastante aquecida, mas o resultado desanimou, pois, a bebida, com todo aquele aperto, continuava a fluir bem lentamente.

Examinou bem o coador atrás de uma nova ideia. Foi quando descobriu o problema – ‘esqueceram de furar o coador, por isso que a água está demorando para descer’ - concluiu com uma satisfação e uma felicidade maior do que a injeção inventada por sua mãe.

Para resolver a situação só precisava de uma tesoura, e na gaveta do armário havia uma. Foi até lá e voltou com ‘uma ferramenta na mão e uma ideia na cabeça’. 

Sorriu de satisfação enquanto assistia ao redemoinho revirar a borra do café e, sem perder mais tempo, despejou a água da chaleira até quase encher o bule com a bebida que preparou com sua genialidade.

Depois de adoçar o café com dez colheres de açúcar - conforme instruções recebidas -colocou um pouco dela em um copo e levou-a para sua mãe, com os olhos brilhando de contentamento e um sorriso imenso enfeitando seu rosto.

Assim que a mulher tomou o primeiro gole da bebida, afastou o copo de sua boca repulsiva e bruscamente e perguntou à criança como ela fizera o café. A pobre contou com todos os detalhes suas descobertas e a solução que dera ao problema.

Não teve jeito. A mãe teve que se levantar e consertar o coador e o café.

Hoje aquela criança concluiu, balançando a cabeça negativamente e com um sorriso sem graça desenfeitando seu semblante:

- Quantos outros coadores eu furei desde então!



Roberto Policiano

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Espera

 Série: psicologicamente poético


Espera

 

 

Não devo ser apressado,

Mas esperar minha vez.

Se não tiver alcançado

Aguardo passar um mês.

 

Talvez espere um semestre,

Ou, se cometi um engano,

Tendo em vista eu não ser mestre,

Pode demorar um ano.

 

Quem sabe, dez, vinte anos,

Às vezes até muito mais.

Tempo algum vai me deter.

 

Aquilo que eu tanto amo,

Na vila, no campo, ou cais,

Uma hora eu hei de ter!


Roberto Policiano

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Julgamento

 Série: quem você pensa que é?


Julgamento

 

 

A mulher chegou a casa após um dia exaustivo de trabalho. Ao entrar viu o carro na garagem. De lá mesmo visualizou o marido deitado no sofá. Colocou a bolsa na prateleira entre os vasos de plantas, pegou a mangueira, o xampu, o pano macio e lavou o veículo, que usaria cedo, no dia seguinte.

 

Pergunta: Por que a mulher lavou o carro?

Tempo para pensar na resposta – um minuto.

...

Tempo para refletir na resposta fornecida – dois minutos.

...

...

Conclusão: Por mais elaborada que tenha sido a resposta, ela não passa de uma invenção!

Os elementos fornecidos foram: Uma mulher que chegou do trabalho; um carro na garagem; um homem deitado no sofá; a decisão da mulher de lavar o carro.

 

Pergunta: De onde foram tirados os demais elementos para se chegar à resposta?

Resposta: Das experiências de vida da pessoa que respondeu.

Percebeu o erro? Foram usados elementos conhecidos de experiências pessoais para fazer o julgamento de ações de pessoas totalmente desconhecidas.

A resposta fornecida - seja ela qual for - está repleta de julgamentos baseados em situações vividas pela pessoa que julgou, ou por alguém conhecido por ela. Pode ter sido influenciada também por informações que leu, assistiu, ou veio a saber por outros meios.

O teor da resposta também foi influenciado pelas emoções experimentadas pelas situações mencionadas acima.

            Por exemplo, se foi uma emoção negativa, provavelmente foi apontado o culpado ou a culpada.

O mesmo pode-se dizer dos argumentos, explicações, e desculpas fornecidas para se chegar à resposta dada.

Há também que se levar em conta o viés da resposta, dependendo se foi um homem ou uma mulher que a forneceu.

Diversos elementos poderiam ser incluídos para percebermos que muitas coisas são levadas em conta ao se fazer um julgamento, que, na maioria das vezes, não fazem parte dos elementos reais da questão.

E o mais assustador é: A pessoa que forneceu a resposta tem a convicção de que fez um julgamento imparcial.

Quantas vezes nossas certezas são baseadas em apoios totalmente infundados!



Roberto Policiano

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Embrutecidos

 Série: Psicologicamente poético


Embrutecidos

 

De repente é sexta

Logo após, segunda,

Como a uma roleta

A rotina nos circunda.

 

Janeiro, maio, outubro,

Rola o ano enlouquecido

E nós, prisioneiros nesse tubo,

Tornamo-nos embrutecidos.

 

Passa a vida como um poste

Visto da janela do trem

E, quanto menos goste,

O passageiro é mais ninguém.

 

Somos conhecidos por números

Registrados em documentos,

Equacionados em meros

Percentuais para argumentos.

 

"Fez-se tantos para algumas";

"Conseguiu-se tais melhorias";

Mão incisiva que empunha

Provas de boas parcerias.

 

Já não pulsam corações,

A não ser em laboratórios;

Não para medir emoções,

Mas preencher relatórios.

 

Se bater tantos por minutos

Os impulsos estão normais.

Fomos reduzidos a diminutos

Biológicos funcionais.



Roberto Policiano

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Construção do ser

 série: Quem você pensa que é?


Construção do ser

           

            De repente reparou melhor em seu semblante refletido no espelho. Levou um susto com o que ‘descobriu’. Como não notara a mudança que sofrera até então? Várias vezes por dia se olhava no espelho durante todos os anos que se passaram, mas escapou-lhe as sutis - mas constantes - mudanças que aconteciam em si durante aquele período. Agora sua imagem olhava fixamente em seus olhos como que a exigir uma explicação por não ter acompanhado as transformações ocorridas. E a mensagem explodida pelo seu próprio reflexo foi:

            - Eis o que você se tornou!

            A emoção com esta ‘revelação bombástica’ fez com que fechasse os olhos por alguns instantes. Naquele curto espaço de tempo sua vida passou diante de si, mostrando a espécie de pessoa que se tornou. Uma voz interior segredou-lhe num sussurro:

            - Muito prazer, eu sou o seu ser!



Roberto Policiano

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Resolução

 Série: Psicologicamente poético


Resolução

 

 

Resolvi manter meu sorriso

Mesmo que eu não tenha motivo.

Embora eu pareça sem juízo

Quero mantê-lo sempre ativo!

 

Farei uma boa inspeção

Para limpar meu coração.

Farei tudo o que for preciso

Para resguardar meu sorriso.

 

Extirparei todo o rancor,

Toda maldade, toda inveja,

Todo ciúme e todo furor.

 

A tudo de que não se preza

Decido jamais dar asilo

Para preservar meu sorriso!



Roberto Policiano

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Questão de lógica

 Série: Quem você pensa que é?


Questão de lógica

 

            Observe a equação abaixo:

            5 + 4 + 7 + 2 = 18

            Digamos que o resultado esperado fosse quarenta e cinco.

            Pergunta:

            Como conseguir alcançar quarenta e cinco?

            Respostas:

            Mudando-se uma, algumas, ou todas as parcelas;

            Mudando-se uma, algumas, ou todas as parcelas e acrescentando uma ou mais;

            Mantendo-se uma, algumas ou todas as parcelas e acrescentando uma ou mais.

            Como podemos aplicar esta equação à nossa vida?

            Resultado, em algumas situações, pode ser substituído por consequência.

            Trocando a palavra parcela por atitudes, temos:

            Atitude 1 + Atitude 2 + Atitude 3 + Atitude 4 = Consequência.

            Conclusão:

            A soma das atitudes que tomamos tem, como consequência, nossa vida atual.

            Pergunta:

            Estou contente como minha vida atual?

            Respostas:

            Se a resposta for positiva devemos manter essas atitudes;

            Se a resposta for negativa devemos:

                     Mudar uma, algumas ou todas as atitudes;

          Mudar uma, algumas ou todas as atitudes e acrescentar uma ou mais;

            Manter uma, algumas ou todas as atitudes e acrescentar uma ou mais.

            Conclusões:

            - Não faz sentido esperar mudar a nossa vida sem alterar as nossas atitudes.

         - A mudança da minha vida depende da minha disposição de mudar minhas atitudes.

                   - Minha vida é consequência das minhas atitudes.

 

Roberto Policiano

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Desejo da alma

 série: Psicologicamente poético


Desejo da alma

 

 

Oh! Alma, alma minha, pelo que procuras?

Por que me envias ao mundo a andarilhar?

Buscas por alívio? Queres alguma cura?

Outro rumo? Novo caminho a trilhar?

 

Teu desespero chega à beira da loucura!

Tua busca frenética chega a me burlar!

Tal qual uma abelha vive pela doçura,

Ou como uma estrela que não cansa em brilhar,

 

Assim estás tu - loucamente procurando

O que precisas – mas não sabes precisar!

E eu, submisso, busco; caço; procuro; ando;

 

Por algo que - me garantes – hás de precisar!

E sigo inconsequente sob o seu comando

Atrás do que eu – dizes tu - preciso precisar!



Roberto Policiano

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Fluir da vida

 Série: Quem você pensa que é?


Fluir da vida


 

Quando levantou os olhos se deparou com uma cena que o deixou perturbado. Viu um de seus amigos de infância descendo a ladeira apoiando-se em uma bengala. Não podia ser verdade; Benjamim; como? Lembrou-se de quando os dois brincavam juntos com os outros meninos nos tempos de meninice e balbuciou:          

- Parece que foi ontem!

A visão do colega naquela situação o levou a refletir sobre as condições dos outros conhecidos. Jacinira, por incrível que pareça, já era avó. Zé Biló se aposentou já fazia alguns anos. O Chinéu desapareceu e ninguém nunca teve notícias suas. Dezanélia, após o casamento, mudou-se para outro Estado e não se houve falar dela. Bozito perdeu quase todos os cabelos, sobrando-lhe, para consolo, apenas os fios laterais. Janite está com a cabeça branca, parecendo uma bola de algodão doce. Quatro deles não aguentaram chegar até aquele momento e já não existem mais, a não ser na memória dos parentes e amigos mais achegados. Então sua mente deu um pulo e chegou até os famosos de sua época. Aqueles que faziam papéis de galã das novelas e ainda atuavam, são os avós nas histórias de hoje. As músicas de seu tempo, que costumavam tocar em todas as rádios, há muito não se ouvem mais. Quem quiser escutá-las, terá que comprar um CD, se conseguir achar algum à venda, pois já é uma tecnologia ultrapassada, embora tão nova.

Voltou a si e às coisas comuns. Seu bairro, por exemplo, como havia mudado! Girou a cabeça para a direita e para a esquerda a fim de ter uma visão panorâmica do lugar. Tudo estava diferente - e muito.

Teve sua reflexão interrompida por um grupo de jovens que subia a ladeira em direção ao colégio. Como se aquilo fosse a coisa natural a fazer, comparou aqueles estudantes com os colegas de escola de sua época. Tudo era muito diferente - as roupas, os calçados, o corte dos cabelos, os adereços, as conversas.

Lembrou-se dos empórios de antigamente e os comparou com os supermercados de agora. Isso o levou, naturalmente, a relembrar das marcas que faziam parte de “seu tempo” e que já não se encontram nas prateleiras. A questão não é se eram melhores ou piores, mas, sim, o fluir do tempo, se bem que, como sustentam alguns filósofos, o tempo não flui. ‘Seja como for’, pensou teimosamente, ‘o tempo passou, ou nós passamos, pois, para ele, era tudo a mesma coisa’.

Olhou para si mesmo - seus braços, suas mãos, suas pernas, seus pés, seus calçados, suas roupas, e concluiu:

- Não sou o mesmo, embora, distraído pelos afazeres da vida, mudei e nem me dei conta.

E, como não podia perder tempo em pensar se é a vida ou o tempo que passa, ou outro fenômeno que acontece, concluiu que viver é saborear cada momento no aqui e agora. Assim, desemaranhou-se das amarras do passado e das incertezas do futuro. Decidiu não se torturar por pensar que a vida, em outras épocas ou em outro lugar, poderia ser muito melhor, pois -“PODERIA” – concluiu, dando ênfase à palavra - é muito incerto para permitir que perturbe seja lá quem for!



Roberto Policiano

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Abandono

 Série: psicologicamente poético


Abandono


Enquanto houver abandono,

A construção de um castelo,

Seja quem for o seu dono,

Não tem sentido, acautelo.



Roberto Policiano

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Para que viver mais?

 Série: Quem você pensa que é?


Para que viver mais?

 

 

Cleunaídes entrou no consultório do clínico geral e sentou-se na cadeira de paciente. Chegara à turma dos sexagenários - razão pela qual estava ali, pois era avesso a ir ao médico. Do outro lado da mesa o Doutor - Barba que não era feita há três dias; acima do peso; camisa listrada com os dois botões de cima desabotoados; avental branco totalmente aberto; os dois braços repousados em cima da mesa com as palmas das mãos viradas para o teto. Os dois homens se miraram por alguns segundos. O silêncio foi quebrado pelo médico.

- E então, senhor Cleunaídes, o que o traz aqui?

- A idade, doutor.

- Pela sua ficha o senhor acabou de fazer sessenta anos, é isso mesmo?

- Sim senhor!

- E o que o preocupa?

- A mim nada, mas depois de muita insistência da Genasina aqui estou eu.

- Genasina é a sua mulher?

- Isso mesmo.

- Entendo muito bem. Vamos lá, tire a camisa e deite-se na maca, por favor.

Depois dos exames de praxe cada um dos homens voltou a se sentar.

- Já fez exame de próstata?

- Nunca fiz.

- Qual foi a última vez que você foi ao médico.

- Nunca precisei.

- Você toma bebida alcoólica?

- Provei um pouco há muito tempo, mas não gostei. Desde então não tomei mais nada.

- Você fuma, masca ou cheira tabaco?

- Dei uma pitada num cigarro de palha, mas me engasguei e tossi tanto que meus olhos se encheram de água. Até hoje estou longe desta praga.

- Usa algum tipo de droga?

- Jamais fiz essa besteira.

- Costuma passar muitas noites acordado?

- Claro que não, doutor, a noite foi feita para dormir! Ademais, como eu me levanto cedo para ir ao trabalho, tenho que deitar cedo. Estou tão acostumado com isso que pouco depois que escurece minha cabeça começa a cambalear de sono, e eu, como não gosto de teimar com a natureza, vou logo me deitar.

- Você não frequenta festas?

- Só as festas dos parentes, mas não fico muito tempo não.

- E quando você se reúne com os amigos, não fica até tarde da noite?

- Eu gosto de prosear com os amigos nas tardes de domingo, quando não vou visitar algum parente, mas assim que o dia escurece eu volto para casa, afinal, segunda de manhãzinha tenho que me levantar para trabalhar.

- Você ainda trabalha?

- Trabalho, não muito como antes, é verdade, mais ainda trabalho.

- Você não é aposentado?

- Sou sim doutor, e já faz um bom tempo. Mas, sabe como é, o que a gente recebe de aposentadoria é pouco, não dá para depender só desse dinheiro. Além do mais, ficar em casa sem fazer nada é ruim, pois, mesmo que eu quisesse, a minha Genasina não me deixa botar a mão no serviço dela. Então só me resta trabalhar, doutor. Pois se a noite foi feita para dormir, o dia foi feito para trabalhar.

- Posso ser sincero com você, Cleunaídes?

- Deve, doutor, Deve.

- Qual o seu interesse em viver mais?

O paciente não esperava e, portanto, não estava preparado para responder essa pergunta, de modo que, por alguns segundos um desconfortável silêncio tomou conta do consultório. O sexagenário pendeu um pouco a cabeça para a direita, apoiou o queixo numa das mãos, e direcionou os olhos para a mesa. O médico, concluindo que sua pergunta não fora feliz, ameaçou reatar a conversa, mas Cleunaídes fez um sinal com a mão que estava livre, indicando que queria responder à pergunta. Em seguida disse:

- Perto da minha casa, na rua detrás de onde eu moro, tem uma rocha. De vez em quando eu vou com a Genasina lá e nós dois ficamos sentado naquela pedrona esperando o sol se por. É a coisa mais linda que eu já presenciei. Ver o céu ficar amarelo, depois alaranjado e então vermelho até escurecer é algo indescritível. Assistir a esses espetáculos ao lado da minha mulher não tem preço que pague.

Eu tenho um amigo que a gente trata ele de Toninho. Uma vez por mês a gente se reúne no boteco do Dico para ouvi-lo tocar violão. Os que sabem cantar acompanha a música com suas vozes. Eu não toco nem canto, mas não perco aqueles momentos por nada.

Umas três vezes por ano minha família gosta de ir à praia. São viagens curtas, de apenas um fim de semana. Gostamos de ir fora de temporada porque é mais sossegado. Ver o mar se movimentando para lá e para cá faz mexer a alma da gente.

Eu tenho um primo que mora numa chácara não muito longe de casa. É uma viagem de duas horas de ônibus de onde eu moro até lá. Às vezes vários membros de nossa família se reúnem ali, onde passamos o fim de semana. Ouvir os pássaros cantar, descobrir flores silvestres, encontrar animaizinhos entre os ramos, e colocar a conversa em dia com os parentes é muito bom.

A Genasina, doutor, é uma cozinheira de mão cheia. Só de me lembrar da comida que ela prepara me dá água na boca, mas a macarronada que ela faz supera todas as outras. O senhor precisa provar a macarronada dela qualquer dia, é uma delícia.

Bem, doutor, São por causa dessas coisas que eu quero continuar a viver, eu acho.

- Nunca ninguém foi tão convincente como você, Cleunaídes - disse o médico com um sorriso sincero enquanto tentava esconder a emoção - vou pedir alguns exames clínicos para o senhor.



Roberto Policiano