quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Marcão

 Série: quem você pensa que é?


Marcão

 

  - Lá vem um, Marcão. Vamos começar a trabalhar.

- Deixa esse comigo. Fica só na cobertura. Vou deixar o cara passar do poste, onde está mais escuro.

- Toma cuidado!

- Se liga, mermão. Fui eu que  ensinei as manhas pra você.

- Vai que ele é todo seu.

...

- Escuta aqui, ô meu. Vai passando...

- Marcão! Que surpresa! Ainda ontem estive conversando com a turma a seu respeito.

- Turma? Que turma?

- A turma do colégio. O Chiquinho, o Moita, o Ditão, a Magali, a Silvinha, a Bentinha e o Neguinho. Depois chegou a Tathi e o Pingo. Numa certa altura da conversa alguém lembrou do dia em que você ganhou a Ritinha, a garota mais cobiçada do colégio. Lembra-se disso? Foi a maior zoeira, cara! O Paulão, que também estava a fim da mina, quis tirar uma com você. Mano, nunca vi ninguém apanhar tanto! Você deu tanto peteleco nele que o malandro ficou duas semanas sem aparecer por lá e, quando voltou, veio mais afinado que viola de serenata. Você foi demais naquele dia! E o dia em que o professor Eustáquio colocou aquele exercício na lousa e desafiou a turma a resolvê-lo? Ele ofereceu três pontos, mas ninguém topou. Aí você chegou e, ao ficar sabendo da treta, pegou o giz e fez aquela conta que ocupou metade da lousa. Cara, como o professor o elogiou! Pois é, você sumiu da área, mermão. Onde você tem andado, mano?

- Bem, negócios. Sabe como é a vida. A gente luta daqui, peleja dali, e vai tocando como pode.

- Aparece lá no pedaço. A turma vai ficar feliz com sua presença. Lembra-se do Geninho?

- Sei.

- Sábado ele vai dar um churrasco na casa dele. Ele ainda mora no mesmo lugar. Você ainda se lembra onde é?

- Claro que me lembro.

- Vê se consegue dar uma chegada por lá. A turma vai fazer a maior festa quanto ver você.

- Vou fazer uma forcinha e ir.

- Preciso ir agora que estou um pouco atrasado. Venha cá, deixa em dar um abraço apertado. Isso mesmo. Até mais amigão, estaremos esperando por você no sábado.

- Pode esperar que eu chego por lá.

- Até lá!

- Até!

...

- Que aconteceu, Marcão? Quem era aquele cara?

- Um colega meu do tempo do colégio.

- Pô, Marcão, você nunca estudou. O cara enrolou você, meu. Vamos atrás dele que ainda dá tempo de alcançá-lo.

- Não. Deixa o meu amigo ir embora em paz.

- Acorda, Marcão, o cara nunca foi seu amigo. Ele deu um ‘H’ em você.

- Se ele não foi meu amigo antes, foi agora. Ele me fez sentir gente. De repente eu ganhei uma turma, estudei num colégio, ganhei a Ritinha, dei uma surra num tal de Paulão e ainda venci um desafio de um professor. Além do mais, tem uma turma me esperando pra fazer a maior festa! Esse meu amigo, que eu nem sei o seu nome, me deu um passado brilhante e um abraço tão apertado que eu não me lembro de ter recebido um igual a esse.

- Se liga, meu irmão, cai na real.

- Tô ligado! É isso mesmo que eu vou fazer. Quem sabe um dia eu encontro a Ritinha? Adeus.

- Aonde você vai, Marcão?

- Mudar de vida. Quero ser o outro Marcão.



Roberto Policiano


quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Consequências

 Série: Psicologicamente poético


Consequências

 

 Fugiu de medo?

Não conquistou.

Não tem segredo

Quem não guardou.



Roberto Policiano

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Coador

 Série: Quem você pensa que é?


Coador

 

 

Era domingo. A mulher queria dormir um pouco mais, mas seus filhos ficaram em volta dela na cama, pedindo para ela se levantar. Para ganhar mais um tempinho no leito, a mãe negociou dizendo que levantaria se alguém levasse café para ela. Continuando deitada, passou orientações para que seus rebentos conseguissem preparar a bebida. Primeiro pediu que um deles pusesse água para ferver. A criança perguntou:

- Mas como é que se faz isso?

E a mãe ensinou no estilo passo-a-passo.

- Pegue a chaleira, tire a tampa, coloque-a debaixo da torneira, abre-a para cair água, feche-a, coloque novamente a tampa, ponha a chaleira no fogão, pegue a caixa de fósforo, tire um palito, risque do lado da caixa, vire o botão da boca do fogão, encoste o fogo na boca do fogão para acender.

A cria correu e executou seu trabalho com sucesso e voltou para a cama da mãe. Outra criança recebeu as próximas orientações:

- Pegue o mancebo e ...

- O que é mancebo?

- É onde se coloca o coador.

- Eu sei o que é - disse a irmã mais velha.

- Então vai você - respondeu a matriarca.

- Oba! - Exultou quem se livrou da tarefa.

- Oba coisa nenhuma - retrucou a mãe - você vai com ela para aprender. Depois de pegar o mancebo acha o bule e ...

- Eu pego o mancebo e ele acha o bule - sugeriu a menininha.

- Nada mais justo, assim cada um faz uma coisa - respondeu a mulher.

 Embora a matriarca fingisse não ver, observou o filho olhar emburrado para a irmã e dar um leve empurrão no braço dela, que retrucou por mostrar-lhe a língua.

Depois das missões cumpridas os dois voltaram para o lado da mestra, que passou as orientações seguintes para outra criança – esclarecimento: ela tinha muitos filhos.

- Agora você vai até a cozinha e coloque o bule dentro do mancebo.

Essa última ‘foi num pé e voltou no outro’. Como era bom ficar ao lado da mamãe! Principalmente porque ela trabalhava fora e só podia ficar rodeada de filhos aos domingos.

- Você - disse a mãe apontando para uma criança que ainda não havia dado sua contribuição - vai até lá e enfie o coador no mancebo.

Quando esta retornou e informou que fizera o trabalho, veio a próxima instrução para outro filho.

- Agora é a sua vez. Coloque três colheres de pó de café dentro do coador e fique esperando até começar a sair fumaça da chaleira.

Essa tarefa demorou um pouco mais para ser executada, mas, por fim, a criança retornou informando que a água já estava fervendo.

- Preste atenção que agora é você que vai. - Disse a mãe chacoalhando levemente o braço direito de um de seus rebentos - Pegue a chaleira e coloque água no coador. Quando esvaziar coloque água de novo. Repita isso até quase encher o bule de café. Depois coloque dez colheres de açúcar, mexe bem, e traz um pouco no copo para eu experimentar se está bom de doce. Mas tome muito cuidado, porque a água está fervendo e se cair em você vai queimar sua pele, doer muito, vamos ter que levar você ao hospital e o médico vai aplicar eu seu bumbum uma injeção deste tamanho!

E para mostrar de que tamanho seria a injeção, ela abriu bem os braços, deixando a criança com os olhos tão arregalados que ficaram desse tamanho! Nada podia ser tão convincente, pois o rebento foi cumprir sua obrigação com todo o cuidado que conseguiu arranjar.

Chegando à cozinha pegou a chaleira e despejou água no coador até enchê-lo e esperou. Mas o coador era de pano e o nível da água descia bem devagarzinho, e quem cumpria a tarefa estava com mais pressa do que o café, que caia preguiçoso na ponta debaixo fazendo um fiozinho bem fininho da bebida.

Depois de pensar por alguns segundos tentando achar uma via de escape para o café e, principalmente para si, a criança teve a ideia de ordenhar o coador, mas, lembrando-se do alerta que recebera e do tamanho da injeção, pôs sua mão com cautela em volta do coador fervente e, como percebeu o calor, retirou-a imediatamente. Esperou por mais alguns demorados segundos. Sua impaciência foi maior do que o seu medo, assim, apertou novamente o coador rapidamente, largando-o sem seguida. Como sobrevivera e, embora a mão esquentasse consideravelmente, pôde suportar a quentura, repetiu o gesto algumas vezes. Conforme ia ganhando coragem, o aperto da ordenha demorava um pouco mais. Sua mão ficou bastante aquecida, mas o resultado desanimou, pois, a bebida, com todo aquele aperto, continuava a fluir bem lentamente.

Examinou bem o coador atrás de uma nova ideia. Foi quando descobriu o problema – ‘esqueceram de furar o coador, por isso que a água está demorando para descer’ - concluiu com uma satisfação e uma felicidade maior do que a injeção inventada por sua mãe.

Para resolver a situação só precisava de uma tesoura, e na gaveta do armário havia uma. Foi até lá e voltou com ‘uma ferramenta na mão e uma ideia na cabeça’. 

Sorriu de satisfação enquanto assistia ao redemoinho revirar a borra do café e, sem perder mais tempo, despejou a água da chaleira até quase encher o bule com a bebida que preparou com sua genialidade.

Depois de adoçar o café com dez colheres de açúcar - conforme instruções recebidas -colocou um pouco dela em um copo e levou-a para sua mãe, com os olhos brilhando de contentamento e um sorriso imenso enfeitando seu rosto.

Assim que a mulher tomou o primeiro gole da bebida, afastou o copo de sua boca repulsiva e bruscamente e perguntou à criança como ela fizera o café. A pobre contou com todos os detalhes suas descobertas e a solução que dera ao problema.

Não teve jeito. A mãe teve que se levantar e consertar o coador e o café.

Hoje aquela criança concluiu, balançando a cabeça negativamente e com um sorriso sem graça desenfeitando seu semblante:

- Quantos outros coadores eu furei desde então!



Roberto Policiano

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Espera

 Série: psicologicamente poético


Espera

 

 

Não devo ser apressado,

Mas esperar minha vez.

Se não tiver alcançado

Aguardo passar um mês.

 

Talvez espere um semestre,

Ou, se cometi um engano,

Tendo em vista eu não ser mestre,

Pode demorar um ano.

 

Quem sabe, dez, vinte anos,

Às vezes até muito mais.

Tempo algum vai me deter.

 

Aquilo que eu tanto amo,

Na vila, no campo, ou cais,

Uma hora eu hei de ter!


Roberto Policiano

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Julgamento

 Série: quem você pensa que é?


Julgamento

 

 

A mulher chegou a casa após um dia exaustivo de trabalho. Ao entrar viu o carro na garagem. De lá mesmo visualizou o marido deitado no sofá. Colocou a bolsa na prateleira entre os vasos de plantas, pegou a mangueira, o xampu, o pano macio e lavou o veículo, que usaria cedo, no dia seguinte.

 

Pergunta: Por que a mulher lavou o carro?

Tempo para pensar na resposta – um minuto.

...

Tempo para refletir na resposta fornecida – dois minutos.

...

...

Conclusão: Por mais elaborada que tenha sido a resposta, ela não passa de uma invenção!

Os elementos fornecidos foram: Uma mulher que chegou do trabalho; um carro na garagem; um homem deitado no sofá; a decisão da mulher de lavar o carro.

 

Pergunta: De onde foram tirados os demais elementos para se chegar à resposta?

Resposta: Das experiências de vida da pessoa que respondeu.

Percebeu o erro? Foram usados elementos conhecidos de experiências pessoais para fazer o julgamento de ações de pessoas totalmente desconhecidas.

A resposta fornecida - seja ela qual for - está repleta de julgamentos baseados em situações vividas pela pessoa que julgou, ou por alguém conhecido por ela. Pode ter sido influenciada também por informações que leu, assistiu, ou veio a saber por outros meios.

O teor da resposta também foi influenciado pelas emoções experimentadas pelas situações mencionadas acima.

            Por exemplo, se foi uma emoção negativa, provavelmente foi apontado o culpado ou a culpada.

O mesmo pode-se dizer dos argumentos, explicações, e desculpas fornecidas para se chegar à resposta dada.

Há também que se levar em conta o viés da resposta, dependendo se foi um homem ou uma mulher que a forneceu.

Diversos elementos poderiam ser incluídos para percebermos que muitas coisas são levadas em conta ao se fazer um julgamento, que, na maioria das vezes, não fazem parte dos elementos reais da questão.

E o mais assustador é: A pessoa que forneceu a resposta tem a convicção de que fez um julgamento imparcial.

Quantas vezes nossas certezas são baseadas em apoios totalmente infundados!



Roberto Policiano