quarta-feira, 29 de abril de 2020

Obsessiva busca da libertação

Série - Quem você pensa que é?



Obsessiva busca da libertação

Enquanto aguardava por sua vez na sala de espera de um consultório psicológico, folheava sem muito interesse uma das revistas disponíveis. Só queria observar as gravuras para passar o tempo. No entanto, seus olhos acharam a palavra obsessão e arrastaram com eles toda a atenção do paciente. Foi então que leu uma informação intrigante. A obsessão pode ser notada nos pequenos detalhes do dia a dia do sujeito. Tomar banho sempre no mesmo horário, visitar sempre o supermercado no mesmo dia da semana, comer os mesmos alimentos, preparados do mesmo modo, viajar sempre pelo mesmo caminho, são alguns sinais - dizia o artigo -que poderia indicar uma sutil obsessão. Esqueceu as gravuras e leu atentamente o artigo, relendo-o a seguir e tornando a fazê-lo, só interrompendo a leitura quando ouviu seu nome ser anunciado.

Assim que chegou a casa correu para o computador e só saiu dali horas depois com um maço de papéis impressos. Segurava os documentos com a mão direita enquanto batia-os lentamente nas pontas dos dedos da mão esquerda. Seu rosto estava iluminado por um sorriso - nada mais, nada menos do que um sorriso de libertação. Conseguira, depois de extenso raciocínio, planejar sua vida para os próximos cinco anos. Sua rotina estava devidamente tabulada para que nenhum ato seu se repetisse, seja no horário, itinerário, alimentação, passeio, pessoas, entre outras coisas.  Ou seja - conseguira enquadrar a si mesmo a fim de não cair num modo obsessivo de ser!


Roberto Policiano

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Agente

Série - Psicologicamente poético


Agente

Quando a gente
torna-se agente
deixa de ser a gente.

Roberto Policiano

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Tio Bento

Série - Quem você pensa que é?

Tio Bento


Dezessete horas e quarenta e cinco minutos. A campainha soa. Rosinha foi atender. Ao abrir a porta e olhar para o portão, um desânimo tomou conta imediatamente dela. Era o tio Bento que chegara. Um segundo e alguns centésimos depois se recompôs e foi em direção à visita.

Cumprimentos de praxe e o convite para entrar. Já na sala uma poltrona é indicada e o recém-chegado a ocupa. Alguns minutos depois uma xícara de café é serviço, acompanhada de biscoitos de amigo de milho. As novidades são colocadas em dia entre uma bebericada e uma mordiscada.

A pequena Adelaide, de apenas sete anos de idade, entra na sala e, depois de cumprimentar o tio avó com um beijo no rosto e se incomodar com a barba dele por fazer, que o parente insistiu em esfregar no rosto dela, escapou do sacrifício e sentou-se ao lado da anfitriã.

Terminada a introdução de praxe o visitante iniciou sua longa lista de reclamações de pessoas a que tem contato. Em casa tem problemas com diversos membros da família; na região onde mora alguns vizinhos o perturbam; frequenta uma associação cultural, mas está prestes a abandoná-la porque algumas pessoas são insuportáveis demais; no emprego alguns colegas de trabalho tentam escorar nele e o chefe não toma nenhuma providência para resolver a situação.

Então a garota Adelaide teceu o seguinte comentário:

            - Como o senhor é azarado, tio Bento! Em todo o lugar onde o senhor está tem sempre alguém o incomodando. Parece que o senhor não tem sossego, não é mesmo?

            O homem respondeu com um sorriso forçado e alguns murmúrios e, talvez, intimidado pelo comentário inocente da sobrinha, ficou mais alguns minutos e, movido por uma lembrança conveniente de uma obrigação inadiável, despediu-se e seguiu seu rumo.

            Enquanto caminhava, o comentário da criança gritava em sua mente: “Onde o senhor está...”; “Onde o senhor está...”. Em meio a tal “gritaria” um “cochicho interior” prevaleceu sobre o falatório. Chegou a casa determinado a reavaliar-se. 

Roberto Policiano

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Acertos e erros

Série - Psicologicamente poético


Acertos e erros

Meu maior erro - ter nascido.
Meu maior acerto - ter nascido.
Por que a vida é feita de erros e acertos.


Roberto Policiano

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Coprófagos

Série - Quem você pensa que é?


Coprófagos


De repente me dei conta de que somos tratados como coprófagos. Não sabe do que se trata? Tudo bem, não se preocupe, pois não é uma palavra que faz parte do nosso cotidiano, portanto não aparece em jornais e periódicos comuns. Aliás este fato é muito significativo, mas depois eu volto a ele. Quero primeiro matar sua curiosidade.

Coprófago nada mais é do que um scarafaius. Para ajudá-lo, o nome anterior é uma variante de scarabaeus. É uma designação comum – comum? – de insetos pertencentes à grande família dos Scarabaeidade, ou, se facilitar, dos escarabeídeos.

Estou falando do velho escaravelho, também conhecido como escarabeu, carocha, rola-bosta, capitão, coró, bicho-bolo e bicho-carpinteiro. Chamá-lo de velho não é exagero nenhum, pois o scarabeus sacer, ou, se preferir, o escaravelho sagrado, era conhecido e adorado pelos antigos egípcios e usado como amuleto relacionado com a vida após a morte e a ressurreição.

E o que pretendo eu ao dizer que somos tratados como estes besouros pesados e coloridos, designados cientificamente como coleópteros e coprófagos? Pois bem, sabia que muitos deles se alimentam de excrementos de mamíferos herbívoros? Tente visualizar a mamãe Scarabeus sacer preparando uma bolinha de escremento - algumas, um pouco mais voltada para a arte culinária, fazem uma cobertura de barro sobre o prato principal - para, em seguida, levá-lo a um escoderijo, onde deposita um ovo para que seu rebento - seu querido filhinho - tenha o que comer quando nascer! Tendo providenciado o desejum para os seus, chegou a vez de providenciar a refeição para a família.

Entendeu porque em algumas regiões eles recebem o nome de rola-bosta? Não quero nem pensar numa confraternização familiar! Muitas espécies, na ânsia de prover sustento suficiente para o futuro, vive quase que exclusivamente para estocar excrementos em vários pontos do terreno, muitos dos quais eles jamais se lembrarão.

Agora, olhe para nós. O que se nos oferece? Em quê estamos empenhando nossas vidas? Quantas ‘porcarias’ consumimos constantemente? Quantas quinquilharias nos são oferecidas com a garantia de que elas são necessárias para a nossa ‘felicidade’? E, convencidos de que se nos oferecem o que há de melhor, passamos nossas vidas a ajuntá-las.

Responda-me sinceramente – Somos ou não somos coprófagos?   

Roberto Policiano