quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Palavras II

Série: Psicologicamente poético



Palavras  II

 

Quando bem escolhida,

A palavra paz lavra.


Roberto Policiano

 


quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Óculos de ver a vida

Série: Quem você pensa que é?



Óculos de ver a vida

           

            A mamãe levou a filhinha ao shopping a fim de fazer algumas compras. O motivo real, porém, era apaziguar o espírito dela, que andava um pouco perturbado. Algumas coisas estavam a incomodar e nada melhor do que um passeio para refrigerar as ideias.

            A garotinha, alheia à aflição materna, gozava da oportunidade de ver aquele mundo maravilhoso de cores, luzes, pessoas, sons, movimentos e aromas. Cada detalhe a enchia de entusiasmo que era exteriorizado por uma enxurrada de perguntas e observações.

            Uma vitrine chamou a atenção da senhora. Dentro em pouco ela estava sentada diante de um balcão experimentando vários óculos de sol. A menininha não foi esquecida, pois uma das funcionárias colocou à disposição dela uma coleção de óculos de plástico para que ela pudesse imitar a compradora em se olhar no espelho com o novo visual.

            A cada nova prova a criança ficava encantava com o colorido das lentes que deixava o ambiente cor-de-rosa, lilás, azulado... Tomada de emoção com tais experiências incríveis, ela olhou para sua mãe e lhe perguntou:

            - Mamãe com que óculos você vê a vida?

            A garota não percebeu, mas a pergunta inquietou profundamente sua mãe.




Roberto Policiano

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Palavras I

Série: Psicologicamente poético



Palavras    I

 

Frase,

Que fazes?

Depende da fase!


Roberto Policiano


quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Atrás da porta

Série: Quem você pensa que é?



Atrás da Porta

                       

            Quem conheceu o Serafim não conseguiu acreditar na transformação que ele sofreu. Um homem com personalidade forte, enérgico, extremamente exigente e que não admitia ser contrariado quando administrava com mão de ferro o hospital onde trabalhava por mais de quarenta anos, se tornou um moribundo quase desencarnado que já não andava, apenas arrastava as pernas lentamente enquanto era apoiado por alguém. Fora lesado assim por um problema pulmonar, e, para ajudá-lo na recuperação, mudara-se temporariamente para um casarão da família, construído numa região serrana, cujo clima era propício para quem sofria de problemas respiratórios. Sua esposa o acompanhou a fim de atuar como enfermeira – pois, ela, de fato, era. O doutor havia desistido de viver, portanto sua mulher tinha que convencê-lo a tomar os remédios prescritos. Ele os tomava apenas para agradá-la.

            O convalescente foi colocado em um quarto cuja visão dava para o mar e uma encosta pedregosa onde as ondas rebentavam ruidosamente e espumavam. Havia uma sacada de onde o doente poderia assistir ao espetáculo da natureza confortavelmente sentado em uma poltrona reclinável. Uma porta separava o aposento daquele local.

            Certa vez, enquanto descansava na poltrona, Serafim observou que a porta era entalhada, percebendo ali uma obra de arte. Ela estava pintada de verde, mas as intempéries e o tempo contribuíram para arrancar a maior parte da tinta ou desbotá-la aqui e acolá. Curioso, o homem foi examiná-la mais de perto. Não contente com isso, pediu que lhe trouxessem uma espátula e algumas lixas.

            Iniciando o trabalho sem muito entusiasmo, o ancião começou a livrar aquela prancha de madeira dos restos de sua cobertura. No entanto, com o passar do tempo, ele ficou cada vez mais empolgado com as descobertas. Acessou a internet e pesquisou sobre o modo correto de recuperar uma peça de madeira e, de posse de tais informações, solicitou outras ferramentas e alguns produtos químicos que contribuiriam para remover a pintura velha com mais facilidade. O restaurador descobriu que por baixo da tinta verde havia outras três de cores diferentes.

A esposa, a princípio, ficou preocupada com a nova atividade do marido, principalmente porque isso o colocaria em contato com pó, tintas velhas e solventes químicos, sem contar o esforço do trabalho braçal. No entanto, ao notar o entusiasmo crescente do esposo, percebeu que ele descobriu um “para quê viver” e aquiesceu, embora isso significasse um cuidado extra com o doente.

Enquanto o restaurador executava seu novo serviço, foi conduzido ao passado por sua imaginação, onde “viu” o artesão trabalhando na peça que ele agora se empenhava em recuperar. “Descobriu” um escravo artista, brutamente tratado pelo seu dono, que, não contente com o tempo gasto no entalhe da madeira, “pagava” o serviço do desgraçado com chibatadas no fim do dia para que ele fosse mais ligeiro e deixasse de fazer “corpo mole” com suas obrigações. O infeliz não respondia, mesmo porque não tinha permissão para fazê-lo. Sabendo que, se ousasse dirigir a voz àquele que tinha o título de propriedade de sua pessoa, poderia ser colocado no pelourinho e ter o couro do corpo arrancado, resignava-se a responder: ‘Sim senhor, meu patrão, sim senhor’.

Porém o restaurador, sentindo repulsa pelo que acabara de imaginar, e condenando a si mesmo por tal conclusão, forçou a imaginação para ver um senhorio bondoso que cuidava bem de seu artista e lhe fornecia um ambiente de trabalho digno, além de generosa recompensa financeira pela obra de arte que nascia das mãos calejadas do artesão.

Ele riu um sorriso triste, como que duvidando de sua última “versão”, mas procurava - mesmo descrente - manter a última imagem em seus pensamentos. Quando caiu em si percebeu que lágrimas rolavam de seu rosto e assustou-se com isso, pois até então tinha sido uma pessoa que repelia qualquer sentimentalismo.

Aproveitando o envolvimento do marido com a nova atividade, sua esposa - e também enfermeira - usava isso como convencimento da ingestão dos medicamentos, lembrando ao moribundo que, se ele quisesse ver seu trabalho terminado, precisava estar vivo e os remédios o ajudariam nisso. Porém, com o passar do tempo e o progresso da empreitada, o homem já não precisou mais ser lembrado dos – agora benditos – comprimidos, pois sabia dos horários e solicitava-os à sua mulher, que prontamente o atendia.

             Depois de trabalhar arduamente durante várias semanas, o madeiro surgiu nu e natural diante dos olhos descrentes do antigo moribundo, pois os últimos exames – que ele teve que ser convencido a abandonar sua atividade para ir ao hospital a fim de submeter-se a eles – revelaram o recuo da doença e o fortalecimento do organismo.

Sua descoberta o fez mudar de planos, pois sua intenção inicial era revestir a porta com verniz, mas agora, diante daquele madeiro preservado por séculos – e isto não é uma força de expressão – sentiu-se endividado pelo artesão da peça, e, talvez, para recompensá-lo pelos maus tratos e indiferenças - ou melhor, pensou o homem com renovada descrença – para acrescentar valor e reconhecimento já recebidos pelo artista original, resolveu manter a madeira em seu estado natural e, ao invés de envernizá-la, decidiu encerá-la.

Nova pesquisa indicou a melhor cera e o melhor método de aplicá-la, assunto posto em execução imediatamente. A nova etapa do trabalho começou por se lixar completamente a prancha. Os tipos de lixas, suas sequencias e frequências de usos, além dos movimentos apropriados, foram cuidadosamente estudados e aplicados.

Como resultado do tratamento recebido aquele madeiro - que o restaurador descobriu para sua surpresa e alegria, fora esculpida em uma única tábua, o que aumentou a dívida do trabalhador para com a árvore que deu sua vida para a fabricação da porta - deixou que o homem descobrisse a maciez de sua pele ao toque atento e gentil do último artista a tocar com maestria o miolo do velho tronco.

Meses depois, estando restaurado tanto o homem quanto a porta, uma cerimônia foi organizada por ele e sua fiel companheira a fim de apresentar aos amigos e parentes a peça escondida atrás das velhas tintas.

O artesão atual falava com entusiasmo e orgulho sobre cada etapa de seu trabalho, dos custos envolvidos, tanto financeiro como de tempo e dedicação, e de cada descoberta descortinada diante de si.

Uma das convidadas, sobrinha do artista restaurador, depois de olhar com desinteresse para o resultado final do trabalho, comentou:

            - Não seria mais fácil e menos oneroso pintar a porta de verde?

            O artista não respondeu, apenas sorriu e, para seu próprio espanto, não foi um sorriso de desdém, mas de compreensão.

            Um de seus velhos amigos, que acompanhava atentamente e com gozo cada palavra e explicação do anfitrião, e que o conhecia como ninguém, inclusive de suas respostas ácidas e ríspidas quando contrariado, admirou-se da reação do colega e, virando-se para o companheiro ao lado, que conhecia o palestrante tão bem quanto ele, sussurrou:

            - Esta porta curou o nosso amigo Serafim com muito mais profundidade do que eu imaginei.

            O outro, compreendendo o seu interlocutor, respondeu por balançar vagarosamente sua cabeça afirmativamente, indicando total concordância com o que acabara de ouvir.



Roberto Policiano