quarta-feira, 25 de março de 2020

Esperança

Série - Psicologicamente poético



Esperança



A esperança

Tem poder

De atender

A criança



Escondida

Nas vontades

Reprimidas

Das idades



E fazer

Nossos sonhos

Despontar



No prazer

De um risonho

Despertar.


Roberto Policiano

quarta-feira, 18 de março de 2020

Saturação

Série - Quem você pensa que é?



Saturação

           

                   

            A noite não tardaria a chegar. Thomaz caminha em direção à sua casa, como tem feito nos últimos quinze anos. Como trabalhador da construção civil, cumpre sua jornada das sete horas da manhã até às dezesseis horas. Às onze horas vai, junto com seus companheiros de serviço, ao refeitório improvisado no canteiro de obras a fim de almoçar. Depois de esperar alguns minutos na fila, pega sua marmita e se dirige para a última mesa, onde ele e os amigos conversam enquanto comem.

            Naquela tarde, porém, ele pareceu alheio ao que acontecia em sua volta. Não percebeu o movimento das pessoas; não viu quando um amigo lhe acenou na porta do bar onde costuma tomar um trago após o expediente; não ouviu que sua música preferida estava tocando na loja de discos; não notou o olhar inquieto de Catarina, balconista da padaria do Vieira, que sempre fica espreita quando ele passa por lá. Não demonstrou a mesma pressa habitual das tardes de quarta-feira, dia em que ele se reúne com os amigos na casa do Barbosa para o jogo de cartas.

            Alguma coisa está diferente naquele jovem senhor, geralmente muito vivaz. O andar autômato não é o andar costumeiro dele. O olhar sem brilho que carrega não condiz com os seus costumeiros olhos brilhantes. A sisudez que desenfeita o seu rosto nunca foi visto antes pelos seus amigos. A silhueta que perambula pelas calçadas nem de longe lembra o animado trabalhador com o andar cheio de ginga, arrancando risos por onde quer que vá, mexendo com um, animando outro, provocando um terceiro por brincadeira. Apesar do serviço pesado suportado durante todo esse tempo, ele jamais reclamou, antes, era a alegria em pessoa. Coisa boa - muito boa mesmo - é estar no mesmo ambiente onde ele está. Era sempre animação, alegria, otimismo. 

            Não, o Thomaz não está bem. Algo está errado com ele, mas o quê? Esse era o tema da conversa dos amigos que o seguiam de longe com os olhos. Até que Bento, o mais experiente da turma, disse convicto:

            - É saturação; disse em poucas palavras, como sempre fazia.

            - Saturação? Como assim? Questionou Berimbau, o mais novo da turma.

            - É saturação; confirmou Bento, e calou-se.

            Todos esperaram pacientemente a explicação do mais sábio do canteiro de obras. Afinal, quem já havia trabalhado ininterruptamente por quarenta anos em construção, devia perceber o que estava acontecendo.

            Conhecendo o Bento, os companheiros sabiam que a resposta viria após alguns minutos de espera. E veio. Balançando o indicador de cima para baixo compassadamente, reafirmou:

            - É saturação! Isso já aconteceu comigo mais de uma vez, e com muitos dos meus companheiros. De tanto trabalhar com pó e barulho o dia inteiro, chega um momento em que a gente satura, disse ele, parando para tomar fôlego, e, depois de um longo suspiro, continuou:

            - O dia chega, para alguns mais cedo, para os fortes mais tarde, em que acontece a saturação.

            - E o que é saturação? Insistiu Berimbau.

            - Observem o Thomaz, disse Bento apontando para o amigo. Parece que ele não ouve nem vê coisa alguma. É como se ele estivesse com os olhos cheios de pó e os ouvidos cheios de ruído. Sei muito bem o que é isso, disse ele balançando a cabeça afirmativamente, e concluiu, é saturação!

            - É saturação! Murmuraram todos pensativos enquanto repetiam o gesto do Bento.


Roberto Policiano
Roberto Policiano

quarta-feira, 11 de março de 2020

Semeadura

Série - Psicologicamente poético



Semeadura




Somente


Semeie


Sementes


Sem meias


Verdades.



Roberto Policiano

quarta-feira, 4 de março de 2020

Descoberta

Série - Quem você pensa que é?




Descoberta



Três horas e trinta minutos da manhã e Izidélcio já estava “acordado, vestido, cabelo penteado e barba feita”, como ele gosta de dizer. Girou a chave na fechadura da porta da sala bem devagar para não acordar dona Efigência e moveu o portão com todo cuidado a fim de não provocar nenhum ruído.

Caminhou lentamente em direção à pracinha da pequena cidade. Aspirou profunda e demoradamente o ar da madrugada soltando-o em seguida com a mesma vagarosidade. Gostava de sentir a sensação de tontura provocada pelo excesso de oxigênio no cérebro.

Ao chegar ao seu destino ocupou um banco de madeira debaixo de um ingazeiro centenário. Dali ele participaria de um de seus passatempos favorito – testemunhar o despertar de sua cidade natal. Toda segunda-feira feira é assim, e isso já por vários anos.

Alguns minutos de espera depois ele olhou à sua direita fixando seus olhos num ponto. Não demorou muito e a primeira luz doméstica se acendeu. Tal conhecimento corriqueiro provocou um leve sorriso em nosso observador. Mais uma vez Moreira foi o primeiro, ou melhor, o segundo cidadão a se levantar.

Sem alterar a direção da cabeça Izidélcio apenas mudou o foco de seu olhar para um lugar mais distante da rua e aguardou. Não muito tempo depois a segunda casa do lugar foi iluminada, sinal de que a rotina estava dentro de sua normalidade na casa da dona Emercinda.

Um giro de noventa graus e o ajuste preciso de seus olhos fez com que nosso madrugador voltasse sua atenção para o extremo da cidade a fim de assistir, quase que imediatamente, o acender da terceira lâmpada doméstica do lugarejo.

Depois de alguns minutos vários lares da cidadezinha estavam iluminados. Uma sensação de paz e contentamento tomou conta do ocupante do banco central da pequena praça que, mudando o corpo de posição, escorou bem as costas no encosto, inclinou a cabeça para trás, abriu os braços, descansando-os sobre a base do encosto do banco, fechou os olhos, e se preparou para a próxima experiência gozosa que, como ele conhecia muito bem, não demoraria a acontecer.

Algum tempo depois nosso cidadão aflou as narinas e aspirou lentamente a fim de absorver o aroma de café coado que pairava no ar ainda negro da noite, que bem devagar dava lugar à claridade que chegava. O buquê da bebida fresca penetrou muito mais profundo do que no corpo material daquele homem, pois vinha carregado de significados, fazendo com que ele se quedasse inebriado de êxtase. Izidélcio se comportou como um ilustre convidado sentado à mesa daquelas casas, sorvendo com aquelas famílias um delicioso café numa espécie de desjejum comunitário. O impacto foi tão profundo que suas pupilas gustativas entraram em ação e encheu a boca do convidado de água, que foi deglutida com delicadeza, como se fosse uma porção quente da bebida estimulante. A sensação foi tão prazerosa que as expressões daquele homem retrataram com exatidão a ‘cara’ da felicidade.

Menos de meia hora depois Izidélcio arrastou todos os sons que ouvia para o ‘pano de fundo’ de sua percepção auditiva e se preparou para captar os ruídos que mais lhe interessava naquele momento. Como que cronometrado numa precisão indescritível, os ouvidos de nosso madrugador captaram, ainda longe, os primeiros passos abrindo a jornada da vida dos moradores do local. Um novo sorriso enfeitou a face do homem por ter reconhecido as passadas do velho Damasceno que, embora não seja o primeiro a se levantar, é, na maioria das vezes, o iniciante das caminhadas pelas ruas daquela cidadezinha.

Não muito tempo depois, várias passadas são ouvidas em muitos pontos do local. Elas se entrecruzavam ou se distanciavam, conforme os seus donos. Izidélcio conhece cada uma delas, sabe de onde vem e para onde se dirige. Algumas são apressadas, outras moderadas. Há caminhantes que batem os pés firmes no solo, ao passo que outros dão a impressão de não o tocar, como se estivessem a flutuar.

O madrugador, deixando-se levar pelos sons dos passos, viajou através do tempo e viu a si mesmo nos trajetos que já percorrera até chegar onde está. Lembrou-se de que, naquela época, corria, como a maioria, atrás de seus planos e, por esta razão, suas atenções sempre estavam voltadas para o futuro. Lembrou-se de uma conversa que presenciara entre Manolo, Fritz, Geraldo, Morais, Galdino e outros amigos de infância, onde descobriu que ele não era o único a viver ‘com o corpo no presente e a cabeça no futuro’, como eles costumavam dizer. Alguns deles, desapontados com o resultado de suas vidas, tentavam desesperadamente voltar ao passado e arrancar de lá a tal felicidade que, embora procurada com determinação, conseguiu se esconder por todo aquele tempo. Outros, que ainda não davam por encerrada suas jornadas, discutiam com os primeiros e insistiam que eles deveriam se concentrar à frente, argumentando que alvos e perspectivas eram necessários a todos, pois serviam como motores para impulsionar nossas vidas, imprimindo nelas sentido. Já um terceiro grupo condenava os dois primeiros argumentando que a felicidade não está nem no passado, que não pode voltar mais, nem no futuro, que é incontrolável e desconhecido, mas no presente – ‘no aqui e agora’ - faziam questão de frisar. ‘Nossas mentes’, arguiam eles, ‘tem de estar onde nosso corpo está’, e apontavam a harmonia de uma orquestra para ilustrar o que achavam ser um argumento irrefutável. E uma acalorada discussão nasceu com cada um dos três grupos defendendo seu modo de ver a vida. Izidélcio, que não tomara partido em nenhum dos três lados por reconhecer que não sabia a resposta certa, ouviu atentamente os argumentos de cada grupo sem fazer qualquer julgamento. Ficou confuso com o falatório e, reconheceu - saiu do jeito que entrou - com exceção dos conhaques que tomara enquanto assistia aquele debate acalorado.

Nunca mais ele havia pensado no assunto, pois acreditava que não seria importante fazê-lo. No entanto, na quietude daquele momento, descobriu uma resposta que fazia sentido, tendo, como resultado, a formação de um largo sorriso que movimentou a maioria dos músculos de sua face, enquanto sua mão direita fechou-se automaticamente e socou, com seu lado externo, sua coxa direita, ao mesmo tempo em que balbuciou a seguinte expressão:

- É isso!

Depois, admirado com tais reações involuntárias, ajeitou novamente o corpo contra o encosto do banco que ocupava e experimentou um relaxamento nunca conseguido por ele antes. Tendo a convicção de ter descoberto um grande segredo, sorriu de modo audível, num crescente até alcançar uma gargalhada que pareceu brotar da parte mais recôndita de suas entranhas, culminando com uma imensa sensação de bem-estar que é impossível de ser descrita.

A claridade já estava tomando conta do dia quando o aroma do pão assado alcançou as narinas de Izidélcio. Dando por encerrada sua atividade matinal, ele se levantou tranquilo e se dirigiu à padaria.

Quando dona Efigência acordou o café estava quase coado e a mesa já estava posta.

Mas que segredo foi este que ele descobriu, afinal? Embora Izidélcio prefira não alardear sua descoberta, porque, argumenta ele, é avesso a debates, resolveu contar, não antes de muita insistência de minha parte. Usando as palavras dele:

- É como se aquela falação toda de meus amigos ficasse na minha cabeça trabalhando, trabalhando e trabalhando todo aquele tempo até chegar a uma resposta. Eu nem não sou responsável por isso, pois eu nem não sabia que estava pensando nestas coisas difíceis de entender. Minha cabeça ficou pensando sozinha em tudo aquilo e só me avisou do resultado e, como eu gostei da conclusão a que ela chegou, acho que é certo.

- E a que conclusão chegou sua cabeça?

- Bem, ela chegou à conclusão de que a felicidade não está só no passado, nem só no presente, ou só no futuro, mas está nos três lugares. Eu posso, por exemplo, visitar o passado, claro que posso! Ele está registrado na minha cabeça e é possível voltar a ele quantas vezes eu quiser. Também - e quando eu descobri isso eu fiquei abismado - eu posso visitar o futuro. Na primeira vez que eu pensei isso eu até achei uma ideia boba. Como é que alguém visita uma coisa que ainda não aconteceu? Achei até que estava ficando doido. Mas aquele assunto ficou martelando na minha mente. Então meu miolo - querendo provar que isso é possível sim - fez com que eu me lembrasse do rancho que eu mandei construir lá na minha chácara. Quando eu o comprei, o lugar era só um terreno. Depois eu tive a ideia de construir uma casinha. Fiquei imaginando como é que eu queria que ela ficasse e fiz um desenho no papel. Fui até a casa do Pereira e pedi para ele construir do jeito que estava no desenho. Saiu igualzinho! Então eu percebi que antes de o rancho existir de verdade eu estive nele com a minha imaginação, de modo que eu posso sim visitar o futuro - como não? Pois bem, hoje, se eu quiser, posso voltar trinta anos e sentir a felicidade que eu tive lá atrás, ou posso imaginar algo que vai acontecer dez anos no futuro e antecipar uma felicidade minha. Visto que eu posso controlar minhas ideias hoje, consigo sentir essa felicidade agora, neste instante, se assim eu desejar. Além do mais, posso concentrar minha atenção no momento atual e sentir a felicidade de algo bom que está acontecendo aqui e agora. Portanto, meu amigo, a felicidade está no passado, no presente e no futuro, à espera de nossa visita. Foi isso o que a minha cabeça descobriu sozinha.

Como as palavras de Izidélcio me convenceram, nada tenho a acrescentar.


Roberto Policiano