quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Talves

Série - Psicologicamente poético



Talvez




Talvez sim, ou não, quem sabe ao certo?


O deserto é um lugar seco e aberto;


Sem nenhuma água por perto;


Mas pululam nele multidões de insetos


Que alimentam aves, répteis e roedores.


E, nele, nascem frágeis flores,


Que, espertas, mostram suas pétalas à noite,


Quando escapam do sol e de seus açoites,


Enquanto se embebedam de gotas de orvalho.


Durante o dia se fingem de mortas


E, como o coringa entre as cartas de baralho,


Seguem vivas, disfarçando sorrateiras,


Escondendo, onde ninguém nota,


Suas sementes encobertas nas areias!



Roberto Policiano

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Plano B

Série - Quem você pensa que é?



Plano B

           

Sete horas da manhã o celular despertou. Depois de tomar banho foi até a cozinha e colocou água para ferver a fim de preparar o café, como sempre fazia. Pegou o coador, colocou-o no suporte, pôs as três colheres de pó de café e reservou.

Passou manteiga em duas fatias de pão e deixou-as em cima do guardanapo, ao lado da xícara. Dirigiu-se ao fogão a fim de observar se a água já estava fervendo. Foi quando percebeu que o fogo estava apagado. Havia acabado o gás!

E agora, o que fazer? Envolveu a vasilha com as duas mãos e percebeu que a água estava quente. Lembrou-se do leite em pó e do café solúvel, embora não gostasse de leite, mas precisava agir rapidamente se quisesse tomar uma bebida mais ou menos quente. Correu até a mesa para buscar a xícara, colocou um pouco da água nela, dissolveu duas colheres de leite em pó e por fim colocou o café solúvel. Depois de mexer bem, completou a mistura com água. Deu um pequeno trago. Ficou horrível!

Enquanto usava aquilo para molhar o pão amanteigado, refletiu sobre sua reação. Poderia ter praguejado e sentir-se a pessoa mais infeliz dos mortais pelo fato de o gás ter acabado justamente naquela hora, mas, ao invés disso, partiu para a alternativa possível.

Sim, a xícara acomodava não apenas um café com leite quase morno, mas a sua criatividade, que, afinal, nem fora planejada. O que era para ser frustrante tornou-se o seu triunfo. A bebida continuava horrorosa, mas o seu novo significado tornou-a mais suportável de ser ingerida.

Dirigiu-se para o trabalho feliz da vida, pois se dava conta de que tal incidente - que tinha tudo para gerar frustração - foi contornado pelo uso do plano B.


Roberto Policiano

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Sendo

Série - psicologicamente poético


Sendo



Eu influencio


E sou influenciado;


Contribuo para mudar


E sou mudado;


Ajudo a constituir


E sou constituído;


Amanhã eu serei


O que não sou hoje;


E assim será


Até eu deixar de ser!


Roberto Policiano

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Ser si mesmo

Série: Quem você pensa que é?


Ser si mesmo

           

            Olhou com satisfação para o seu novo lar. Sempre quis uma decoração naquele estilo, mas a permanência na casa dos pais impedia satisfazer esse desejo. Caminhou lentamente em cada cômodo do apartamento e observou atentamente cada detalhe, como se fosse a primeira vez que se deparava com eles. Um não sei quê de satisfação invadiu sua alma e um sentimento de realização fez com que um largo sorriso enfeitasse seu rosto. Pela primeira vez sentiu uma sensação de liberdade. Finalmente se sentia livre das amarras que impediram que se manifestasse seu eu em toda sua plenitude. E, para se assegurar de sua total autonomia em gerenciar sua própria vida, determinou viver do modo oposto ao que lhe fora ensinado desde a sua infância.

            Anos depois, apesar de se apegar com afinco à sua decisão, um sentimento de vazio ainda fazia parte de sua vida. O incômodo era tão intenso que o exteriorizou para uma pessoa achegada. Essa, depois de ouvir atentamente a tudo o que lhe fora dito, refletiu por um momento e respondeu:

            - Você continua com as amarras que pensa ter se libertado.

            - Como assim?

            - Você continua com as referências de seus pais.

            - Isso é um absurdo, pois eu fiz questão de ser exatamente o oposto deles!

            - Percebeu o que você acabou de dizer?

            - Não estou entendendo.

            - Vou repetir o que você disse: “Sou exatamente o oposto deles”. Sem notar isso, os referenciais de seus pais continuam dominando sua vida.

            - Como assim?

            - Quando você determinou a si ser o oposto de seus pais, esqueceu-se de ser você.

            - E o que eu tenho que fazer?

            - Seja você mesmo! Para isso é necessário descobrir quem você é, e isso só é possível quando se abandona todos os referenciais.

            Já em casa, enquanto se servia de chá, torradas e requeijão, perguntou-se: 
     
- Quem sou eu, afinal?

Roberto Policiano