quarta-feira, 24 de junho de 2020

Alternativas

Série: Quem você pensa que é?



Alternativas

           



            Dirigia seu carro enquanto pensava nos últimos acontecimentos de sua vida. De repente percebeu que havia passado da entrada da rua por onde deveria seguir. Não se aborreceu, no entanto, pois sabia que a próxima via também levaria ao seu destino.

            Surpreendeu-se assim que rodou alguns metros pela rota alternativa. Como aquele lugar havia mudado! Foi só então que percebeu que fazia anos que não passava por lá. Comparou a si mesmo com as formigas que vão e vêm sempre pela mesma trilha. Algumas casas permaneciam como antes, mas muitas delas tiveram alterações significativas. A própria estrada ganhara um “ar” diferente. Havia árvores em ambos os lados que forneciam sombras agradáveis. E saber que tudo aquilo esteve ali há muito tempo!

            Que dizer das outras rotas? Teriam sofridos as mesmas transformações, ou continuavam como antes? Só havia um jeito de descobrir. Daquele dia em diante procurou fazer um caminho diferente, não só naquele trajeto, mas em todos os demais.

            Obteve uma surpresa atrás da outra, algumas desagradáveis, mas muitas prazerosas. Seus trajetos ganharam novas imagens, novos odores, novos sons, o que os tornaram muito mais significativos. Além de viajar por ruas diferentes, passou a cruzar com outros carros e a ver novas pessoas andando por calçadas diversas. Além do mais, ganhou um jogo interessante. Ao sair de casa, do trabalho, da academia, do shopping, ou de qualquer outro lugar, deveria definir um itinerário diferente do anterior.

            Continuou morando na mesma casa, trabalhando no mesmo local e tendo o mesmo nome, mas sua rotina, com este simples gesto, nunca mais foi a mesma. Desde então deixou de buscar o caminho mais curto e mais rápido, preferindo o mais bonito, mais arborizado, mais agradável.

Roberto Policiano

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Tecendo a vida

Série: Psicologicamente poético



Tecendo a vida



Amanheceu...

O corpo permaneceu imóvel sob o cobertor,

Mas o pensamento passeou,

Ora em direção ao passado,

Revisitando personagens,

Paisagens,

Aromas,

Sabores,

Emoções,

Ora imaginando o futuro;

A vida acontecendo rasgava o silêncio

Cada vez mais escasso

Do lugarejo:

Roncos de motores;

Conversas de amigos;

Latidos de cães;

Cantos, gorjeios e pios de pássaros;

Cavalgada sobre a rua calçada.

O tempo fluía lentamente, e,

Num movimento paradoxal,

Serpenteava em direção ao futuro,

E, ao mesmo tempo,

Cristalizava-se no passado,

Tecendo, entre os dois,

Com imperceptíveis fios de milésimos de segundos,

O momento presente.

Roberto Policiano

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Auditoria

Série: Quem você pensa que é?



Auditoria

                       



            Domingo à tarde. Chovia torrencialmente. Desistiu de sair, mas o que faria? Sentou-se na poltrona da sala de estar; estirou as pernas; esticou os braços longa e demoradamente; bocejou à vontade; largou o corpo relaxado onde se encontrava e deixou-se ficar assim por vários minutos.

            Sentiu a necessidade de fazer uma auditoria de sua vida. Tirou o baú do recôndito de seu cérebro; eliminou as teias de aranha; espanou a tampa a fim de livrá-la do pó e, com o coração acelerado, abriu o móvel bem devagar.

            Depois de examinar por um bom tempo o que encontrou, resolveu contar as lágrimas estocadas. Foi um trabalho doloroso e corajoso. Ao término da contabilidade teve uma triste surpresa – havia mais lágrimas do que as suas próprias.

            Cruzou as pernas, apoiou um dos cotovelos num dos braços da poltrona, pousou o queixo na mão que estava apoiada, e deixou-se levar em pensamentos. Os olhos - tristes e embaçados - logo ficaram cheios, o que aumentou a sua coleção, pois concluíra que as lágrimas excedentes foram as que causara em outrem.           Refletiu um longo tempo sobre a descoberta. Tentou reviver cada situação onde elas nasceram e participou do longo jogo de absolver ou condenar a si.             
        Suspirou profunda e demoradamente e tomou a seguinte resolução – a mais significativa de sua vida – daquele dia em diante se esforçaria para não acrescentar nenhuma lágrima alheia ao seu baú.

            Objetivara que, no futuro, quando fizesse nova auditoria e encontrasse algumas lágrimas adicionais, deveriam ser apenas as suas.

Roberto Policiano

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Sonhos

Série: psicologicamente poético



Sonhos



Chegou o dia da despedida.

Restava apenas recolher os seus sonhos

Para que não ficassem abandonados no fundo do armário.

Antes, porém, a fim de se preparar emocionalmente,

Tentou visualizá-los.

Ficou impressionado quando viu a todos eles:

Uns estavam retorcidos;

Outros ressequidos;

Havia também sonhos rotos;

Os cobertos de pó pelo tempo;

Os que foram realizados;

Alguns que foram sufocados pelas suas próprias mãos;

Também os violentamente arrancados pelas mãos de outrem;

Sonhos murchos;

Abandonados;

Conquistados;

Esquecidos...

Tais visões fizeram com que ele entendesse

Uma verdade até então dele escondida:

Aqueles sonhos não estavam em lugar nenhum!

Não podiam estar num lugar simbólico como um armário,

Nem estavam nele mesmo.

Senão, como se poderia explicar a visão contraditória

De um sonho arrancado?

Descobriu que há muito eles deixaram de serem sonhos.

Aquela sensação de presença não indicava que eles estavam nele,

Mas algo muito mais profundo -

Ao deixarem de serem sonhos,

Tendo ou não se realizados,

Cristalizaram-se e passaram a fazer parte dele.

Como tijolos, foram usados para construir o SER que ele se tornou.

Não, ele não era apenas a soma daqueles sonhos,

Era muito mais do que eles,

Pois sua existência é anterior a todos eles.

Porém, agora todos estavam contidos nele.

Ninguém, nem ele mesmo,

Pode desfazer tal construção.

Comparou-se com si mesmo entre o agora

E o dia que chegara,

E não teve dificuldade em perceber-se outra pessoa.

Não que seu ser original deixou de existir,

Pois ele continuava vivo,

Só que agora acrescido de todos os seus sonhos.

E então, tomado de um súbito espanto,

Sentiu a fragrância de novos sonhos que brotavam.

Alguns com contornos já bem definidos,

Outros ainda tímidos, quase imperceptíveis.

Para alguns deles tinha grandes expectativas

E estava disposto a apostar alto neles;

Quanto a outros, não visualizava qualquer futuro.

No entanto, ele estava ciente de que nas esquinas da vida

Escondem-se o inesperado

E os grandes sonhos podem resultar em nada,

Ao passo que aquele que quase não foi notado

Pode surpreender e dominar o cenário.

A visão destes últimos sonhos,

Ainda tenros,

Dá ao ser de agora

A certeza paradoxal

De que ele continua

Acordado.

Roberto Policiano