quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Desejo da alma

 série: Psicologicamente poético


Desejo da alma

 

 

Oh! Alma, alma minha, pelo que procuras?

Por que me envias ao mundo a andarilhar?

Buscas por alívio? Queres alguma cura?

Outro rumo? Novo caminho a trilhar?

 

Teu desespero chega à beira da loucura!

Tua busca frenética chega a me burlar!

Tal qual uma abelha vive pela doçura,

Ou como uma estrela que não cansa em brilhar,

 

Assim estás tu - loucamente procurando

O que precisas – mas não sabes precisar!

E eu, submisso, busco; caço; procuro; ando;

 

Por algo que - me garantes – hás de precisar!

E sigo inconsequente sob o seu comando

Atrás do que eu – dizes tu - preciso precisar!



Roberto Policiano

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Fluir da vida

 Série: Quem você pensa que é?


Fluir da vida


 

Quando levantou os olhos se deparou com uma cena que o deixou perturbado. Viu um de seus amigos de infância descendo a ladeira apoiando-se em uma bengala. Não podia ser verdade; Benjamim; como? Lembrou-se de quando os dois brincavam juntos com os outros meninos nos tempos de meninice e balbuciou:          

- Parece que foi ontem!

A visão do colega naquela situação o levou a refletir sobre as condições dos outros conhecidos. Jacinira, por incrível que pareça, já era avó. Zé Biló se aposentou já fazia alguns anos. O Chinéu desapareceu e ninguém nunca teve notícias suas. Dezanélia, após o casamento, mudou-se para outro Estado e não se houve falar dela. Bozito perdeu quase todos os cabelos, sobrando-lhe, para consolo, apenas os fios laterais. Janite está com a cabeça branca, parecendo uma bola de algodão doce. Quatro deles não aguentaram chegar até aquele momento e já não existem mais, a não ser na memória dos parentes e amigos mais achegados. Então sua mente deu um pulo e chegou até os famosos de sua época. Aqueles que faziam papéis de galã das novelas e ainda atuavam, são os avós nas histórias de hoje. As músicas de seu tempo, que costumavam tocar em todas as rádios, há muito não se ouvem mais. Quem quiser escutá-las, terá que comprar um CD, se conseguir achar algum à venda, pois já é uma tecnologia ultrapassada, embora tão nova.

Voltou a si e às coisas comuns. Seu bairro, por exemplo, como havia mudado! Girou a cabeça para a direita e para a esquerda a fim de ter uma visão panorâmica do lugar. Tudo estava diferente - e muito.

Teve sua reflexão interrompida por um grupo de jovens que subia a ladeira em direção ao colégio. Como se aquilo fosse a coisa natural a fazer, comparou aqueles estudantes com os colegas de escola de sua época. Tudo era muito diferente - as roupas, os calçados, o corte dos cabelos, os adereços, as conversas.

Lembrou-se dos empórios de antigamente e os comparou com os supermercados de agora. Isso o levou, naturalmente, a relembrar das marcas que faziam parte de “seu tempo” e que já não se encontram nas prateleiras. A questão não é se eram melhores ou piores, mas, sim, o fluir do tempo, se bem que, como sustentam alguns filósofos, o tempo não flui. ‘Seja como for’, pensou teimosamente, ‘o tempo passou, ou nós passamos, pois, para ele, era tudo a mesma coisa’.

Olhou para si mesmo - seus braços, suas mãos, suas pernas, seus pés, seus calçados, suas roupas, e concluiu:

- Não sou o mesmo, embora, distraído pelos afazeres da vida, mudei e nem me dei conta.

E, como não podia perder tempo em pensar se é a vida ou o tempo que passa, ou outro fenômeno que acontece, concluiu que viver é saborear cada momento no aqui e agora. Assim, desemaranhou-se das amarras do passado e das incertezas do futuro. Decidiu não se torturar por pensar que a vida, em outras épocas ou em outro lugar, poderia ser muito melhor, pois -“PODERIA” – concluiu, dando ênfase à palavra - é muito incerto para permitir que perturbe seja lá quem for!



Roberto Policiano

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Abandono

 Série: psicologicamente poético


Abandono


Enquanto houver abandono,

A construção de um castelo,

Seja quem for o seu dono,

Não tem sentido, acautelo.



Roberto Policiano