quarta-feira, 29 de julho de 2020

Retomada

série: Psicologicamente poético


 

Retomada

 

Em uma retrospectiva

Viu-se em sua meninice.

Notou o sistema a lhe rodear,

Engolindo sofregamente,

Segundos, minutos, horas,

Dias, semanas, meses e anos.

E o que lhe parecia eterno

Evaporou-se como fumaça no ar.

Deu-se conta do turbilhão

Onde estivera todo esse tempo.

Examinou-se e, por um instante,

Sentiu-se resto, raspa,

Do que fora antes.

Sua carne, agora amarrotada;

Seus cabelos frágeis, ralos

E quase sem pigmentação;

Suas mãos trêmulas e fracas;

Suas pernas débeis e vacilantes-

Eis o seu saldo

Na conta da vida.

O sentimento de injustiça

Quis abalar-lhe,

Mas afastou isso de si.

Se havia resto,

Se havia raspa,

Havia vida,

Vida havia;

E era sua,

Estava ali

Ao seu dispor

Para dividir

Com quem quisesse.

Assim, ergueu-se,

Livrou-se do pó,

E caminhou.

Se o passo é firme

Ou vacilante,

O que importa?

Se a força mingua,

Se a vida finda,

Não interessa.

E decidiu

Viver a vida

Sem mais ter pressa.

Numa ousadia

Tomou as rédeas

Do próprio tempo.

Cada segundo,

Minuto, ou hora,

Sim, cada dia,

Semana, mês, ou ano,

Seria seu,

Esse era o seu plano.

E pressentiu o turbilhão

De onde escapara

A reclamar-lhe

Esse controle.

Mas desdenhou

Esse pedido

E, confiante,

Seguiu em frente.

E eu me arrisco

A lhe dizer:

Seguiu contente!



Roberto Policiano

quarta-feira, 22 de julho de 2020

De passagem

Série: Quem você pensa que é?



De passagem

           

            Paulinho passava pela praça do lugar em direção ao ponto de ônibus. Amanhecia, e o sol, que enviava seus primeiros raios, coloria as nuvens com um dourado suave, espetáculo que não foi percebido pelo garoto, pois, precisando pegar a próxima condução para chegar à escola, andava apressado sem notar nada em sua volta.

            Já em sala de aula o educador tentava transmitir aos alunos uma informação complexa sobre o tema do dia, mas Paulinho, preocupado com um teste que faria no clube de natação na tarde daquele dia, não conseguia prestar atenção às explicações do professor.

            Mais tarde, já à beira da piscina onde ouvia as orientações do instrutor sobre as técnicas necessárias que deveriam ser usadas para se conseguir atingir o mínimo de tempo necessário para prosseguir na competição, o atleta não percebia um par de olhos dirigidos ternamente para ele.

            No apartamento de seus pais, o estudante, absorto nos exercícios que deveriam ser resolvidos e apresentados na aula do dia seguinte, nem percebeu a chuva que caiu naquele entardecer, tampouco o belo arco-íris que se formou e que poderia ser apreciado se tão somente ele se chegasse à janela de seu quarto.

            E seguiu o menino no mesmo ritmo, sempre tendo algo para planejar, mantendo sua mente no futuro, o que lhe roubava a oportunidade de viver as oportunidades que passavam despercebidas.

            Algumas décadas se passaram e o Doutor Paulo - eminente cidadão que se tornou uma referência em sua especialidade - enquanto descansava numa cadeira de praia, refletia sobre sua vida. Embora progredisse em seu campo de atuação, e, não obstante o reconhecimento profissional e a generosa recompensa financeira por suas contribuições para a ciência, sentia um vazio imenso que ele, embora sábio, não conseguia encontrar uma explicação.


Roberto Policiano


quarta-feira, 15 de julho de 2020

Desacelerando

série: Psicologicamente poético


Desacelerando

 

A vida, exigindo pressa,

Faz-me disparar pela estrada.

Desço correndo pela via expressa,

Contorno à direita e entro na avenida.

Avanço apressado numa alameda,

Continuo ligeiro pela rua.

Para chegar mais rápido ganho uma transversal,

Evito o trânsito optando pela paralela,

Diminuo a marcha numa vicinal,

Sigo menos rápido por uma travessa,

Vou mais tranquilo pela rua de terra batida,

A jornada é lenta pela estrada de barro.

Desembarco ao lado de um caminho

E ando sossegadamente numa picada

Até chegar a um bosque onde posso,

Alheio ao frenesi da cidade,

Entregar-me com gozo ao prazer do momento.



Roberto Policiano

quarta-feira, 8 de julho de 2020

O cachorro e o eco

Série: Quem você pensa que é?


O cachorro e o eco

           

           

            Caminhava em direção ao parque público quando sua atenção foi desviada para um cachorro que, com as patas dianteiras sobre um muro, latia por algum tempo e parava, para continuar logo em seguida. À medida que o tempo corria ele latia mais alto e rosnava ameaçadora e insistentemente.

            O observador, intrigado com o que assistia, interrompeu sua caminhada e continuou a observar a cena. Olhou atentamente o entorno para descobrir a quem ou a que era dirigida a raiva do cão. Não conseguindo achar uma explicação para a ação do animal, que continuava mais furioso em seus latidos, ele aproximou-se gradativamente para perto dele, tomando o cuidado para não chamar a sua atenção.         Foi então que ouviu o que o canino ouvia, resultando em toda aquela raiva. Do ponto de onde se encontrava aquele que dirigia seus desafios caninos, ouvia-se o eco do som emitido, de modo que, toda raiva e ferocidade emitida voltavam para ele mesmo.

            Depois de descoberto o que motivava a demonstração nada amistosa da fera, resolveu - como tinha tempo disponível - ficar e assistir àquele espetáculo até o seu final. Cerca de quarenta minutos depois, o cachorro, completamente rouco, deixou de latir e rosnar e, descendo do muro, foi em busca de um canto onde pudesse remoer todo seu ódio àquele que ousou desafiá-lo.

            Tendo reiniciado sua caminhada o homem não conseguiu parar de pensar no que testemunhara. O que parecia uma coisa banal se tornou, de repente, num assunto para reflexão. “Quantas vezes”, concluiu então, “não cometemos o mesmo erro de esbravejar, espernear, gritar e ameaçar para, por fim, descobrir que a fonte de tanta irritação não está em outro, mas em nós mesmos! ”.


Roberto Policiano


quarta-feira, 1 de julho de 2020

Conduzidos

Série: Psicologicamente poético


Conduzidos

 

A cidade é tomada

Por uma enxurrada de gente

Engolfada num frenesi insano

Cuja rotina, de prazos

Sempre mais urgentes,

Consome horas,

Dias, meses e anos.

Pessoas, absorvidas

Por projetos que não são seus,

Amarradas, por contratos,

Em planos alheios,

São conduzidas com astúcia,

E manobradas como animais

De cargas atrelados a arreios.

Convencida por promessas

Mirabolantes, segue a multidão,

Apática e surda.

Prometem-se a todos

A solidez do tungstênio,

Porém, são arrastados

A uma rota absurda

Que é tão sólida

Como o gás de hidrogênio.



Roberto Policiano