quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Retomada

Série: Psicologicamente poético


Retomada






Numa retrospectiva

Viu-se em sua meninice.

Notou o sistema a lhe rodear,

Engolindo sofregamente,

Segundos, minutos, horas,

Dias, semanas, meses e anos.

E o que lhe parecia eterno

Fluiu-se como fumaça no ar.

Deu-se conta do turbilhão

Onde estivera todo esse tempo.

Examinou-se e, por um instante,

Sentiu-se resto, raspa,

Do que fora antes.

Sua carne, agora amarrotada;

Seus cabelos frágeis, ralos

E quase sem pigmentação;

Suas mãos trêmulas e fracas;

Suas pernas débeis e vacilantes-

Eis o seu saldo

Na conta da vida.

O sentimento de injustiça

Quis abalar-lhe,

Mas afastou isso de si.

Se havia resto,

Se havia raspa,

Havia vida,

Vida havia;

E era sua,

Estava ali

Ao seu dispor

Para dividir

Com quem quisesse.

Assim, ergueu-se,

Livrou-se do pó,

E caminhou.

Se o passo é firme

Ou vacilante,

O que importa?

Se a força mingua,

Se a vida finda,

Não interessa.

E decidiu

Viver a vida

Sem mais ter pressa.

Numa ousadia

Tomou as rédeas

Do próprio tempo.

Cada segundo,

Minuto, ou hora,

Sim, cada dia,

Semana, mês, ou ano,

Seria seu

Esse era o seu plano.

E pressentiu o turbilhão

De onde escapara

A reclamar-lhe

Este controle.

Mas desdenhou

Esse pedido

E, confiante,

Seguiu em frente.

E eu me arrisco

A lhe dizer:

Seguiu contente!


Roberto Policiano

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Desintoxicação

Série: Psicologicamente poético


Desintoxicação

  

O ônibus chegou à rodoviária.

Desceu da condução e caminhou.

Atravessou a cidadezinha devagar.

Na única rua do centro a agência bancária.

Uma farmácia e oito lojas formavam o comércio.

Logo após, a praça com seu coreto;

Sete árvores, três bancos, e um jardim completavam-na.

Avistou a pequena ponte em formato de arco.

Sob ela o riacho com o leito crivado de pedras.

A água rolava barulhenta sobre os seixos.

Alcançou a ruela íngreme.

Entre a vegetação rasteira alguns casebres.

Várias espécies de animais domésticos mordiscavam seus alimentos.

Pássaros gorjeavam empoleirados em galhos.

Uma enorme rocha à sua direita.

Contou uma, duas, três; na quarta viela desviou-se para a esquerda.

O ralo traço da sociedade ficou para trás.

Vinte minutos de caminhada terminou num declive.

O solo recoberto de pedregulhos exigiu passos cuidadosos.

Um caminho serpenteante terminou num vale.

À direita uma enorme jaqueira;

Atrás dela uma casa avarandada;

À esquerda um pequeno rio;

Após, um prado extenso terminava numa montanha.

Girou a taramela do portão, abriu-o e entrou.

Colocou a bagagem na varanda,

Buscou a chave no bolso do casaco,

Girou a maçaneta.

A porta rangeu quando empurrada;

O odor de casa fechada escapou da prisão e

A luz assumiu o lugar da escuridão.

Suspirou profundamente e entrou.

O dia foi de arrumação.

À noite luz só das estrelas,

Também da lua, que era a cheia.

Rádio ou Televisão só se fosse a bateria.

O cansaço levou ao sono

E a noite foi tranquila.

A madrugada trouxe com ela

Cantos, gorjeios e outras falas de animais.

Os galos comunicaram que havia vizinhança.

Felizmente o fogão é a gás.

O café desceu lentamente pelo coador de pano.

Reparou que o pão que trouxera só dava para o dia.

Não havia telefone na região.

O local não recebia sinal de telefone celular.

Se quisesse pão teria que voltar à cidadezinha.

A lembrança do trajeto gerou desânimo.

Resolveu terminar de ajeitar a casa.

O almoço aconteceu tarde.

Aproveitou o resto do dia e foi atrás da padaria.

O segundo dia foi para descansar.

A partir do próximo dia o sossego começou a incomodar.

Falta de notícias, internet, redes sociais, gerou angústia.

O que fazer da vida sem o cabo da conexão com o sistema?

Talvez um passeio, mas só sabia fazer isso nos shoppings.

O tédio incomodou durante a primeira semana.

Por falta do que fazer resolveu andar pelo lugar.

Como não havia pressa passou a reparar no que havia ali.

De repente seus olhos foram abertos para ver;

Seus ouvidos se destaparam para ouvir;

Suas narinas se desbloquearam para cheirar;

Quis apalpar para sentir as coisas e os seres;

Provou uma frutinha agridoce.

Subiu e desceu um morro enquanto explorava o ambiente.

Quando caiu em si estava perto da casa vizinha.

Respondeu ao sorriso que lhe fora dirigido.

Depois dos cumprimentos o convite para um café.

Na conversa conheceu um pouco da história da região,

Além de personagens do passado e do presente.

Ficou sabendo da festa que haveria na comunidade.

Foi, conheceu pessoas e um pouco da cultura.

Descobriu comidas, bebidas, danças e músicas.

Gradativamente se desintoxicou da globalização.

Desconectou-se do sistema e descobriu a vida.

Vida que pensava existir somente em contos de fadas.

Roberto Policiano

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Ser, ou ser

Série: Quem você pensa que é?


Ser; ou ser


           

           

            Num campinho de futebol improvisado em três terrenos baldios contíguos, um grupo de meninos jogava bola. Nenhum deles levava relógio, portanto, a partida não tinha hora para terminar.

            Depois de exaustiva disputa os atletas simplesmente deixaram cair seus corpos na grama que cobria o solo e esperaram pela recuperação. Nada se ouvia a não ser o movimento do ar das respirações aceleradas deles. Gotas de suor fluíam de todos os poros. Em pouco tempo as roupas deles ficaram coladas em suas peles. Pernas e braços, abertos e abandonados molemente, totalmente suarentos, atraíram as lâminas gramíneas para si.

Vários minutos se passaram. Os olhos ardiam com a invasão do fluído salgado provocado pelo suor. Cada um dos jogadores foi recuperando o fôlego paulatinamente. Uma preguiça agradável amoleceu cada fibra dos músculos dos garotos. A quietude e o sossego reinaram por um bom tempo, até que um deles, contagiado pelo entusiasmo da peleja, comentou:

            - Como é bom jogar bola!

            - Nem me fale. Seria tão bom se a gente pudesse só fazer isso a vida inteira!

            - Os jogadores profissionais só fazem isso.

            - Que sorte a deles!

            - Bem que eu poderia ser um deles.

            - Eu queria ser o “A”.

            - Eu prefiro ser o “B”.

            - E eu o “C”.

            - Meu Sonho é ser o “D”.

            - Legal mesmo seria ser o “E”

            E assim, cada um escolheu ser um jogador famoso, menos o Chico.

            - E você, Chico, quem deseja ser?

            - Eu quero ser eu mesmo.

            - O quê? Você não deseja ser ninguém famoso?

            - Claro que não!

            - Por quê?

            - Porque para ser outra pessoa eu teria que morrer!

                - Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!

                  - Ca! Ca! Ca! Ca! Ca! Ca! Ca! Ca! Ca! Ca! Ca!

            - Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih!

            - Ra! Ra! Ra! Ra! Ra! Ra! Ra! Ra! Ra! Ra! Ra!

             - Ri! Ri! Ri! Ri! Ri! Ri! Ri! Ri! Ri! Ri! Ri! Ri! Ri!

            - Por que você acha isso, Chico?

          E ele, com um leve e sutil sorriso quase imperceptível; com uma minúscula puxadinha no canto esquerdo da boca que deixou sua expressão facial enigmática, fincou os cotovelos na grama onde estava deitado, levantou um pouco o corpo, e, com os indicadores esticados e os demais dedos encolhidos, girou suas duas mãos desenhando espirais no ar, ora em sentido horário, ora do lado contrário, respondeu o seguinte:

            - Se eu for ser outra pessoa, quem vai ser eu mesmo?

            Depois de sua fala permaneceu com as palmas das suas mãos viradas para o céu.

           
Roberto Policiano

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Fio da vida

Série: Psicologicamente poético



Fio da Vida





Onde está o fio da vida?

Está no tempo e no espaço;

Nos fatos e artefatos.

No planeta, Continentes ou nas ilhas;

Nos países, nos Estados ou províncias;

Nas cidades, vilas ou vilarejos;

Nos bairros, ruas ou vielas.

Nas coisas que se encontram

Ao dispor pelo caminho.

Nas pessoas que estavam,

Que chegaram e que se foram.

Nos costumes e nas crenças

Passadas e repassadas.

Nas escolas e nos templos.

Nas ciências e na natureza.

No lazer, esporte ou cultura.

No amor, ódio, inveja ou perdão.

No serviço e na profissão.

Na escolha e na rejeição.

Minha vida eu mesmo a teço

Com as minhas próprias mãos.


                                                          Roberto Policiano

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Pingo

Série: Quem você pensa que é?



Pingo



                       

            Cinco horas da manhã, como fazia parte de sua rotina, foi até o banho. O jato de água morna em sua cabeça deu-lhe uma sensação de bem-estar. Sorriu, mas sua alegria durou pouco. Um pingo de água gelada bateu em sua testa. Depois um segundo e um terceiro. E, para seu desgosto, a cada três segundos aquela experiência se repetia. Saiu de debaixo do chuveiro o mais rápido que pôde a fim de evitar aquela sensação desagradável. O bom humor com que acordara se dissipou com o ocorrido. Preparou-se para o trabalho com a cara fechada e um bico desse tamanho. Nem o trânsito fluindo rapidamente foi suficiente para acalmar seus ânimos.

            Ao chegar ao escritório a recepção foi com sorrisos e cumprimentos amigáveis, que foi retribuído do mesmo modo. Quando finalmente entrou em sua sala e se preparava para mais um dia de rotina, o incidente da manhã voltou a tomar conta de seus pensamentos, mas não por muito tempo. De repente pôs-se a refletir sobre o que aconteceu e a sua reação. Havia uma cachoeira de água morna que caía do chuveiro, porém apenas alguns pingos de água gelada. Mas aquelas poucas gotas tiveram o poder de neutralizar a torrente quentinha, a ponto de causar-lhe aborrecimento.

            - Se a minha concentração permanecesse na água morna – raciocinou - aqueles pingos não causariam nenhum efeito, mas quem consegue fazer isso?

            Acreditava que qualquer pessoa, independentemente de sua procedência, se incomodaria com aquelas poucas gotas de água gelada e não levaria em conta as centenas de pingos mornos.

            Sorriu – agora já conseguia sorrir – ao lembrar-se de sua reação.

            Quantas vezes – pensou - não cometemos esse mesmo erro na vida, não só na hora do banho, mas em qualquer situação? Temos a tendência de focalizarmos no que é desagradável na vida enquanto uma infinidade de coisas boas está acontecendo. É como se ficássemos cegos e surdos por tudo de bom que recebemos para direcionar toda a atenção para algo que - na maioria das vezes - nem é tão importante assim. Não nos contentamos com noventa e nove por cento, queremos tudo, mesmo sabendo que quase nunca é possível isso. Se tão somente parássemos para pensar! Com toda a certeza seríamos bem mais felizes.          Determinou a si mesmo dar atenção especial a esse assunto.

            Trinta minutos depois a copeira entrou com o seu lanche que, como sempre, estava caprichado. Um delicioso pão ainda quentinho, salpicado de queijo ralado tostado e um magnífico recheio, que seria regado com um suco natural de laranja. Deu a primeira mordida no alimento e descobriu que o sabor estava melhor do que o visual. Já a bebida decepcionou, visto que a temperatura dela não estava agradável. Quis se estressar, mas lembrou-se do pingo gelado.

            - Concentre-se no lanche, disse para si, e continuou, se o suco não está gelado o suficiente é só colocar gelo.

            Pegou o telefone para chamar a copeira, mas antes de ligar ouviu uma batida na porta.

            - Pode entrar.

            - Desculpe-me, mas esqueci do gelo de seu suco. Aqui está ele.

            - Agradeço muito pela sua atenção, disse numa voz amigável.

            Depois de acertar a temperatura da bebida ao seu gosto, tomou um bocado e, antes de dar outra mordida no lanche, fez questão de prestar atenção ao sabor agradável da bebida gelada.

            - Foi tão simples a solução, pensou, porque não fazemos isso sempre?


                                                                  Roberto Policiano

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Excursão

Série: Psicologicamente poético


Excursão





Vida;

Já chegou a hora;

Tenho a bagagem;

Em tuas entranhas

Excursionarei.



Para onde irei

Tenho alguns palpites,

Mas não faço ideia

Aonde chegarei.



Acredito

Que farei o trajeto

De muitas maneiras.

Quais? Eu não sei!



Posso ir a galope;

Outro trecho a trote;

Levantar um voo;

Mergulhar, talvez.



Deslizar sobre o vento;

Planar entre as nuvens;

Singrar pelas águas

De um mar bravio.



Ou, em um barco a remo,

Sem nenhuma pressa,

Eu siga o meu rumo

Em tempos serenos.

Sei que tal quietude

Pode ser quebrada

Pela cachoeira

Na curva do rio.



Se me restarem forças

Usarei meus braços.

Pode ser que eu vença

Ou que me desfaça.



Posso seguir andando,

Correndo, quem sabe?

Talvez me arrastando

Teimando em viver.



Nesta trilha incerta

Que percorrerei,

Uma coisa é certa:

O que será - não sei!

                                                      Roberto Policiano

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Vida

Série: Quem você pensa que é?


Vida



                       

            O menino passeava em sua bicicleta na ciclovia do parque quando deparou com um ciclista que vinha em sentido oposto. Chamaram-lhe sua atenção os seguintes dizeres que havia na camiseta do outro:

            A vida é ...

            Assim que o atleta passou por ele, o menino virou a cabeça imediatamente e percebeu que na parte de trás da camiseta estava a continuação da frase. O garoto desceu imediatamente da bicicleta, virou-a na direção oposta, montou-a novamente e pedalou o mais rápido que conseguiu. Depois de rodar por alguns minutos, desistiu de cansaço. Foi então que teve a ideia de virar-se novamente, pois assim encontraria o outro mais rápido.

            Cerca de três minutos depois os dois se cruzaram pela segunda vez. O menino só esqueceu que o encontro seria na mesma posição anterior, de modo que só pode ler o que já conhecia. Antes de desanimar, no entanto, mudou novamente de sentido e continuou a pedalar normalmente.

            - Quando ele passar de novo talvez eu consiga ler os dizeres nas costas da sua camiseta, pensou.

            O plano foi perfeito, mas o que o menino não sabia é que aquela era a última volta do outro ciclista, o que ele descobriu quando ele deu uma volta completa na ciclovia sem encontrá-lo.

            Aquela frase havia atiçado a curiosidade do garoto, de modo que, assim que chegou a casa, guardou sua bicicleta no lugar apropriado e informou a sua mãe que iria visitar o avô.

            Depois de cumprimentar os avós com abraços e beijos, como sempre fazia, disse:

            - Vovô Róbson, eu preciso da ajuda do senhor.

            - Vamos até a sala onde poderemos conversar melhor.

            Após se acomodar em sua poltrona preferida o ancião dirigiu-se ao neto:

            - E então Paulo Henrique, em que posso ajudá-lo?

            - Vovô o que é a vida?

            O senhor se maravilhou com a pergunta. Como pode uma criança de apenas nove anos de idade se preocupar com isso?

            - Uma pergunta muito interessante, Paulo Henrique. Desde quando você pensa nisso?

            - Desde hoje quando eu vi uma camiseta onde estava escrito: “A vida é ...” na parte da frente, mas não consegui ler a resposta que estava na parte de trás. Fiquei curioso e pensei que o senhor poderia saber a resposta.

            - Compreendo perfeitamente. Vá até a escrivaninha, por favor, e me traga duas folhas de papel.

            - Pois não.

            De posse das folhas o ancião ficou com uma e deixou a outra com o neto.

            - Pegue o lado do papel e junte-o com o outro lado da folha.

            - Pronto vovô. E agora, o que faço?

            - Faça a mesma coisa, agora com o lado maior.

            - Desse jeito?

            - Isso mesmo. Agora pegue um dos cantos do papel e junte-o ao canto oposto da outra ponta.

            - Devo cruzar na diagonal?

            - Muito bem, é isso que eu quero.

            - Olha como ficou.

            - Perfeito, Paulo Henrique. Agora faça o mesmo com os outros dois cantos.

            - Ficou parecido, vovô.

            - Parecido, mas não idêntico.

            - O que faço agora?

            - Faça um canudo pelo lado mais comprido.

            - Veja vovô; consigo enxergar o senhor pelo canudo.

            - Parece com uma luneta. Agora faça um canudo mais curto.

            - É só enrolar a folha pelo lado menor. Pronto vovô. Continuou uma luneta, só que menor.

            - Agora imagine alguma coisa diferente que pode ser feito com a folha.

            - Já sei! Vou fazer um canudo enrolando a folha na diagonal. Olha vovô, ficou um canudo maior do que o primeiro.

           -Percebeu quantas coisas diferentes foi possível fazer com a mesma folha de papel?

            - Percebi sim, e foi muito divertido.

            - Pois então, Paulo Henrique, isso ajuda a responder a sua pergunta?

            - Como assim, vovô? Não entendi nada!

            - A vida, como a folha de papel, é bastante flexível. Podemos fazer dela o que bem entendermos.

            - Continuo não compreendendo, vovô.

          - A vida será aquilo que fizermos dela, essa é a lição que podemos aprender da folha de papel. Por exemplo, quem encarar a vida como sendo uma droga, é exatamente isso que ela se tornará. Por outro lado, quem achar que ela é uma aventura, a vida será - para essa pessoa - isso mesmo. Se alguém encará-la como algo alegre, ela será simplesmente isso. Para os que a encaram como enfadonha, ela jamais será excitante. Assim, Paulo Henrique, a vida será do modo como a encararmos e não há nenhuma possibilidade de ela ser diferente a não ser que mudamos o nosso modo de enxergá-la. Onde está sua folha de papel?

            - Está aqui, vovô.

            - Amasse-a o tanto que você conseguir e depois a aperte bem.

            - Ficou como uma bolinha.

            - Abra a folha novamente e tente alisá-la.

            - Não consigo. A folha ficou um lixo.

            - Exatamente, Paulo Henrique, esta é a palavra certa – lixo. Assim, se encararmos a vida como tal, ela não será algo diferente. Conseguiu entender o que pretendi mostrá-lo?

            - Mais ou menos, vovô.

            - Então vamos lá. Responda-me o que é a vida.

            - Pelo que eu entendi, não existe uma resposta única. É isso?

            - É isso mesmo. E quem vai definir se a vida será boa ou ruim?

            - Pelo que o senhor me falou é a própria pessoa.

            - Muito bem! Podemos dizer então, sem sombra de dúvida, que cada um de nós é responsável pelo resultado da própria vida.

            - Será que era isso que estava escrito na camiseta daquele homem?

            - Talvez ele volte por lá.

            - Boa ideia! Amanhã voltarei ao parque. Obrigado, vovô.

            - Por nada, Paulo Henrique, por nada.

            - O que faço com esta folha amassada, vovô?

            - Faça com ela o que você quiser.

            - Até mais, vovô.

            - Só mais uma coisinha, por favor.

            - Sim, vovô.

            - Quero que leve essa folha de papel nova.

            - O que o senhor quer que eu faça com ela?

          - Quero que a guarde como recordação da conversa que tivemos. Nunca se esqueça de que o resultado da sua vida está em suas mãos.

Roberto Policiano