quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Faltou a farinha

 série: Quem você pensa que é?


Faltou a farinha

Dona Lourdinha estava atarefada com as encomendas de costura, mas, nem por isso, deixou de parar com os trabalhos quando chegou a hora de preparar a refeição de Ticão, seu marido. 

Ela conseguiu uma sintonia espetacular entre o fogão, o tempo, os alimentos a serem preparados e a chegada do seu homem para o almoço. Não era incomum ela apagar o fogo do último alimento e ouvir, logo a seguir, o giro da maçaneta indicando que o companheiro chegava para comer. 

Enquanto Ticão se dirigiu ao lavatório dona Lourdinha montou a mesa, tirou o avental, e sentou-se em sua cadeira preferida. Era o momento em que ele chegava para assumir o seu lugar a mesa. A refeição seguia sempre animada com os dois conversando sobre as atividades de ambos.

Naquele dia, porém, ela só foi perceber que a farinha preferida dele havia acabado quando não dava mais para sanar a falha. Acreditou na sensatez do marido e esperou que ele não fizesse caso do assunto, mas não foi o que aconteceu. 

Depois de montar o seu prato Ticão foi atrás do farináceo a fim de regar o alimento com ele. Não se conformou quando foi avisado pela mulher - com a voz trêmula e baixa - que não dera pela falta daquele alimento. 

Acabou o dia para ele e, consequentemente, para ela. Ticão fez um discurso lamurioso e exaltado, onde ficou clara sua decepção de ter que ficar sem sua iguaria. Comentou que, em sua vida, havia poucos motivos para felicidade e, um deles era exatamente poder almoçar com sua preciosa - nevinha sobre a comida - como ele costumava dizer. 

Para o desgosto da companheira, o homem deixou o prato montado na mesa e saiu batendo os pés.  Passou aquele dia com fome. A mulher também não comeu, porque o choro impediu a comida de descer. 

Como naquela casa não se consumia alimento requentado, tudo foi parar no lixo, inclusive a tarde de ambos. 

O que mais impressiona é que a casa do casal ficava ao lado de um armazém onde podia se comprar o tão desejado acompanhamento da refeição. A felicidade estava ali perto, esperando para ser alcançada, mas o orgulho ferido e a incompreensão ergueram uma muralha entre ela e o comensal amargurado.


Roberto Policiano


quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Formação

 Série: Quem você pensa que é?


Formação


Tia e sobrinha conversavam sobre a vida e suas consequências. Comentavam sobre os tipos de pessoas diferentes que conheciam e como cada uma delas reagia de maneira diferente diante da mesma situação. E a entrevista começou, girou e terminou neste mesmo tema.

Dias depois a tia convidou a sobrinha para acompanhá-la numas compras que faria num dos shoppings da cidade. Já haviam passado das treze horas, de modo que a acompanhante foi convidada a almoçar num dos restaurantes do local. Era comida por peso, portanto os clientes se serviam dos alimentos que apreciavam. Depois dos pratos montados elas ocuparam uma das mesas. Logo as bebidas solicitadas foram trazidas por uma das atendentes. Aconteceu o seguinte diálogo entre as duas:

- Percebi que você gosta de batatas.

- E como! Acompanha bem qualquer prato.

- E pelo que eu vejo chuchu não é muito apreciado por você.

- Não sei como alguém consegue comê-lo, não tem gosto de nada!

- Lembra-se da conversa que tivemos sobre as pessoas serem diferentes?

- Claro que sim! Até me lembro de que eu perguntei como eu vim a me tornar a pessoa que sou hoje.

- Pois bem, o sistema de alimentação deste restaurante pode ilustrar a resposta à sua pergunta.

- Como assim?

- Há uma grande variedade de alimentos disponíveis para nos servirmos e podemos escolher os que queremos e simplesmente deixar os não tão apreciados por nós onde eles se encontram.

- E o isso tem a ver com a minha pergunta?

- Tem tudo a ver! Quando nascemos recebemos de herança, além da constituição genética e dos recursos materiais de nossa família, o modo de ser de seus membros. Quando a isso não temos nenhuma escola à princípio, por não termos capacidade para tal. Geralmente adotamos os mesmos hábitos familiares, por exemplo, tipo de alimentos que consumimos, preferências por esporte, lazer, leitura, hábitos de estudos, lugar preferido para passar as férias, entre outras coisas.

- Insisto em perguntar o que isto tem a ver com a minha pergunta.

- Já vou chegar lá, tenha um pouco de paciência. À medida que crescemos entramos em contato com outras pessoas e, nestas ocasiões, temos oportunidade de escolher se queremos ser iguais à elas ou não. Quanto mais entramos em contato com gentes e ambientes novos, mais temos que decidir o que reter e o que dispensar, em vários assuntos da vida. Ao mesmo tempo, temos oportunidade de comparar o que herdamos de nossa família e o que deparamos de diferente. Nestas ocasiões podemos rever o que recebemos como herança e reafirmar o que foi nos ensinado, ou optar por algo novo que nos atrai. É como se estivéssemos em um restaurante escolhendo o que comer dentre todas as opções. Essas escolhas vão nos formando como indivíduos. É assim que nos constituímos.

- Quer dizer que o mundo nos oferece inúmeros caminhos e escolhemos qual deles devemos seguir?

- Isso mesmo! E cada escolha que fazemos nos torna a pessoa que escolhemos ser.

- Neste caso devemos tomar cuidado com o que colocamos no prato, ou seja, em nossas vidas.

- Exatamente, pois a pessoa que somos é a soma dos resultados das opções escolhidas.

- O que nos torna responsável pelo que somos!

- Muito bem! Em conclusão podemos dizer que temos total liberdade para escolhermos o que quisermos para nossa vida, e, junto com ela, a responsabilidade pelos resultados.

- E não tem como colocar a culpa no cozinheiro!

- Ah! Ah! Ah! Ah!

- Ih! Ih! Ih! Ih!


Roberto Policiano

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Ser; ou ser

 Série: Quem você pensa que é?


Ser; ou ser



Num campinho de futebol improvisado em três terrenos baldios contíguos, um grupo de meninos jogava bola. Nenhum deles levava relógio, portanto, a partida não tinha hora para terminar. 

Depois de exaustiva disputa os atletas simplesmente deixaram cair seus corpos na grama que cobria o solo e esperaram pela recuperação. Nada se ouvia a não ser o movimento do ar das respirações aceleradas deles. 

Gotas de suor fluíam de todos os poros. Em pouco tempo as roupas deles ficaram grudadas em suas peles. Pernas e braços, abertos e abandonados molemente, totalmente suarentos, atraiam as lâminas gramíneas para si. 

Vários minutos se passaram. Os olhos ardiam com a invasão do fluído salgado provocado pelo cansaço. Cada um dos jogadores foi recuperando o fôlego paulatinamente. 

Uma preguiça agradável amoleceu cada fibra dos músculos dos garotos. A quietude e o sossego reinaram por um bom tempo até que um deles, contagiado pelo entusiasmo da peleja, comentou:

- Como é bom jogar bola!

- Nem me fale. Se a gente pudesse fazer só isso a vida inteira!

- Os jogadores profissionais só fazem isso.

- Que sorte a deles!

- Eu queria ser um deles.

- Eu queria ser o “A”.

- Eu prefiro ser o “B”.

- E eu o “C”.

- Meu Sonho é ser o “D”.

- Legal mesmo seria ser o “E”

E assim, cada um escolheu ser um jogador famoso, menos o Chico.

- E você, Chico, quem deseja ser?

- Eu quero ser eu mesmo!

- O quê? Você não deseja ser ninguém famoso?

- Claro que não!

- Por quê?

- Pra ser outra pessoa eu tenho que morrer!

- Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! 

- Ca! Ca! Ca! Ca! Ca! Ca! Ca! Ca! Ca! Ca! Ca! Ca!

- Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih!

- Ra! Ra! Ra! Ra! Ra! Ra! Ra! Ra! Ra! Ra! Ra!

 - Ri! Ri! Ri! Ri! Ri! Ri! Ri! Ri! Ri! Ri! Ri! Ri! Ri!

- Porque você acha isso, Chico?

E ele, com um leve e sutil sorriso quase imperceptível, com uma pequena puxadinha no canto esquerdo da boca, enigmatizando sua expressão facial, fincou os cotovelos na grama onde estava deitado e, com os indicadores esticados e os demais dedos encolhidos, girava suas duas mãos desenhando espirais no ar, ora em sentido horário, ora do lado contrário,  respondeu:

- Se eu for ser outra pessoa, quem vai ser eu mesmo?

E ficou, com as palmas das mãos viradas para o céu, esperando a reação dos amigos.

Desfez-se o alarido imediatamente.


Roberto Policiano


quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Decisão

 Série: Psicologicamente poético


Decisão


 Hoje será diferente,

Não terei nenhuma pressa.

E, para ser coerente,

Só farei o que me interessa.

 

Ficarei nesta varanda

Conversando com amigos;

Vendo como a vida anda

Com eles, com outros, comigo.

 

Falando da natureza;

Das fúrias dos furacões;

Da mudança da maré.

 

Tamborilando na mesa;

Rememorando canções;

Bebericando café.


Roberto Policiano