quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Para que viver mais?

 Série: Quem você pensa que é?


Para que viver mais?

 

 

Cleunaídes entrou no consultório do clínico geral e sentou-se na cadeira de paciente. Chegara à turma dos sexagenários - razão pela qual estava ali, pois era avesso a ir ao médico. Do outro lado da mesa o Doutor - Barba que não era feita há três dias; acima do peso; camisa listrada com os dois botões de cima desabotoados; avental branco totalmente aberto; os dois braços repousados em cima da mesa com as palmas das mãos viradas para o teto. Os dois homens se miraram por alguns segundos. O silêncio foi quebrado pelo médico.

- E então, senhor Cleunaídes, o que o traz aqui?

- A idade, doutor.

- Pela sua ficha o senhor acabou de fazer sessenta anos, é isso mesmo?

- Sim senhor!

- E o que o preocupa?

- A mim nada, mas depois de muita insistência da Genasina aqui estou eu.

- Genasina é a sua mulher?

- Isso mesmo.

- Entendo muito bem. Vamos lá, tire a camisa e deite-se na maca, por favor.

Depois dos exames de praxe cada um dos homens voltou a se sentar.

- Já fez exame de próstata?

- Nunca fiz.

- Qual foi a última vez que você foi ao médico.

- Nunca precisei.

- Você toma bebida alcoólica?

- Provei um pouco há muito tempo, mas não gostei. Desde então não tomei mais nada.

- Você fuma, masca ou cheira tabaco?

- Dei uma pitada num cigarro de palha, mas me engasguei e tossi tanto que meus olhos se encheram de água. Até hoje estou longe desta praga.

- Usa algum tipo de droga?

- Jamais fiz essa besteira.

- Costuma passar muitas noites acordado?

- Claro que não, doutor, a noite foi feita para dormir! Ademais, como eu me levanto cedo para ir ao trabalho, tenho que deitar cedo. Estou tão acostumado com isso que pouco depois que escurece minha cabeça começa a cambalear de sono, e eu, como não gosto de teimar com a natureza, vou logo me deitar.

- Você não frequenta festas?

- Só as festas dos parentes, mas não fico muito tempo não.

- E quando você se reúne com os amigos, não fica até tarde da noite?

- Eu gosto de prosear com os amigos nas tardes de domingo, quando não vou visitar algum parente, mas assim que o dia escurece eu volto para casa, afinal, segunda de manhãzinha tenho que me levantar para trabalhar.

- Você ainda trabalha?

- Trabalho, não muito como antes, é verdade, mais ainda trabalho.

- Você não é aposentado?

- Sou sim doutor, e já faz um bom tempo. Mas, sabe como é, o que a gente recebe de aposentadoria é pouco, não dá para depender só desse dinheiro. Além do mais, ficar em casa sem fazer nada é ruim, pois, mesmo que eu quisesse, a minha Genasina não me deixa botar a mão no serviço dela. Então só me resta trabalhar, doutor. Pois se a noite foi feita para dormir, o dia foi feito para trabalhar.

- Posso ser sincero com você, Cleunaídes?

- Deve, doutor, Deve.

- Qual o seu interesse em viver mais?

O paciente não esperava e, portanto, não estava preparado para responder essa pergunta, de modo que, por alguns segundos um desconfortável silêncio tomou conta do consultório. O sexagenário pendeu um pouco a cabeça para a direita, apoiou o queixo numa das mãos, e direcionou os olhos para a mesa. O médico, concluindo que sua pergunta não fora feliz, ameaçou reatar a conversa, mas Cleunaídes fez um sinal com a mão que estava livre, indicando que queria responder à pergunta. Em seguida disse:

- Perto da minha casa, na rua detrás de onde eu moro, tem uma rocha. De vez em quando eu vou com a Genasina lá e nós dois ficamos sentado naquela pedrona esperando o sol se por. É a coisa mais linda que eu já presenciei. Ver o céu ficar amarelo, depois alaranjado e então vermelho até escurecer é algo indescritível. Assistir a esses espetáculos ao lado da minha mulher não tem preço que pague.

Eu tenho um amigo que a gente trata ele de Toninho. Uma vez por mês a gente se reúne no boteco do Dico para ouvi-lo tocar violão. Os que sabem cantar acompanha a música com suas vozes. Eu não toco nem canto, mas não perco aqueles momentos por nada.

Umas três vezes por ano minha família gosta de ir à praia. São viagens curtas, de apenas um fim de semana. Gostamos de ir fora de temporada porque é mais sossegado. Ver o mar se movimentando para lá e para cá faz mexer a alma da gente.

Eu tenho um primo que mora numa chácara não muito longe de casa. É uma viagem de duas horas de ônibus de onde eu moro até lá. Às vezes vários membros de nossa família se reúnem ali, onde passamos o fim de semana. Ouvir os pássaros cantar, descobrir flores silvestres, encontrar animaizinhos entre os ramos, e colocar a conversa em dia com os parentes é muito bom.

A Genasina, doutor, é uma cozinheira de mão cheia. Só de me lembrar da comida que ela prepara me dá água na boca, mas a macarronada que ela faz supera todas as outras. O senhor precisa provar a macarronada dela qualquer dia, é uma delícia.

Bem, doutor, São por causa dessas coisas que eu quero continuar a viver, eu acho.

- Nunca ninguém foi tão convincente como você, Cleunaídes - disse o médico com um sorriso sincero enquanto tentava esconder a emoção - vou pedir alguns exames clínicos para o senhor.



Roberto Policiano

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Éramos

 Série: Psicologicamente poético


Éramos

 

Eu era;

Tu eras;

Nós éramos.

Depois de algumas eras

Mudamos de ser.

Já não sou o eu de outrora.

Tu te tornaste você.


Roberto Policiano


quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Aposentadoria

 Série: Quem você pensa que é?



Aposentadoria

 

 

Acordou com o barulho estridente do despertador. Levantou-se, travou o relógio e ia se preparar para o trabalho quando se lembrou de que era o primeiro dia de sua aposentadoria. Sentou-se na beirada da cama, passou as mãos no rosto e nos cabelos e continuou na mesma posição por vários minutos, pois não sabia o que fazer. Sua rotina - nos últimos quarenta anos - foi levantar-se ao som característico de todas as manhãs e, quase que automaticamente, se aprontar, pegar sua marmita, e sair em direção ao ponto de ônibus. Agora que estas ações não são mais necessárias, simplesmente não soube o que fazer.

Como não lhe sobrou alternativa, deu de filosofar – coisa de ociosos, que os antigos gregos podem comprovar muito bem -. Descobriu, na verdade sem muito esforço, que, nos últimos anos, sua vida não lhe pertenceu, pois, com a imposição das necessidades, a vendera para o mercado de trabalho. Assim, na maior parte de sua existência, funcionou como a uma máquina automática, sem haver necessidade de pensar no que fazer, posto que isto já estava determinado por aqueles que alugaram sua vida para tocarem os projetos deles. Acostumou-se a proceder como uma ‘coisa’, sem ter o trabalho de decidir o que fazer - como acontece com a grande maioria dos em sua volta. Tal situação nunca lhe causou qualquer angústia, pois presumira como sendo o modo de vida natural e esperado por e para todos.

 Agora que a sua vida voltou ao seu comando, não sabia o que fazer com ela. Sentiu certa estranheza com isso. Deu-se conta de que, embora pensasse que fosse senhor de si, fora administrado todo esse tempo por outros. Uma sensação de sequestro se apoderou de sua pessoa. Concluiu que vivera em cativeiro nos últimos quarenta anos. Foi até o espelho e encarou sua imagem demoradamente. Presenciou a marca deixada pelo tempo em seu rosto, cabelos, braços, mãos...

Recusou-se a continuar o autoexame. Voltou a sentar-se na beirada da cama. Ficou por alguns minutos a contemplar seus pés e pensou:

- Sempre achei que fosse eu que os comandava.

Deu um longo e profundo suspiro.  Assustou-se com o fato de que, sendo agora o senhor e dono de si, não tinha a menor ideia do que fazer.



Roberto Policiano

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Refrigério

 Série: Psicologicamente poético


Refrigério

 

Peço, não se desespere,

Mesmo que a dor impere

É possível achar atalho.

 

Num impulso que me impele,

Ofereço a própria pele

Para servir-lhe de agasalho.

 

Pois quando a pele em outra pele

Num abraço de adere;

Refrigera qual orvalho.


Roberto Policiano


quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Atitude

Série: Quem você pensa que é?


Atitude

         Não cabia em si de tanto contentamento. Seria seu primeiro dia naquele emprego. Era tudo que sonhara. Para a sua felicidade seu novo local de trabalho ficava a quatro quadras da estação do metrô, trajeto esse que poderia ser feito a pé, contribuindo assim para a manutenção de seu condicionamento físico, coisa que fazia questão de mantê-lo. O fato de não ter que tirar o carro da garagem e enfrentar o trânsito infernal da cidade onde morava era outra vantagem bastante significativa. Não teria gasto nem com combustível nem com estacionamento, além de ficar com a consciência tranquila por não contribuir para a poluição do ar, nem para o aquecimento global. Além do mais, o período do novo trabalho não impediria de continuar a lecionar, pois isso era a sua verdadeira paixão. Não teria nem que atravessar a rua ao sair da condução, pois o lugar onde trabalharia ficava do mesmo lado do desembarque.

            A primeira semana foi uma maravilha. Tudo funcionou perfeitamente como planejara. Na semana seguinte, porém, deparou-se com um inconveniente – o início da construção de um edifício bem ao lado da estação do metrô.

            A movimentação de trabalhadores e máquinas se intensificou a cada dia. Desde então teve que dividir o espaço com caminhões, trabalhadores, água, lama, materiais que chegavam constantemente e pessoas que vinham e iam.

            Não deixou se intimidar com a mudança, mas procurou encarar tudo com naturalidade. Havia o incômodo de ter que limpar os sapatos ao chegar ao escritório, mas, pensava, a situação seria passageira.

Num dia de chuva, quando deixava o local de trabalho e se dirigia para a estação do metrô com todo o cuidado que a situação demandava, olhou para o lado oposto da rua e não pôde acreditar no que via – uma calçada limpa e desimpedida à espera de ser ocupada. Como não percebera isso antes?

No dia seguinte, após desembarcar da condução, atravessou a rua e, enquanto caminhava confortavelmente na calçada limpa e livre, não conseguia parar de olhar para o outro lado da via onde as pessoas caminhavam com dificuldades.

Em seu trajeto refletiu sobre o assunto e chegou à conclusão de que a rotina muitas vezes nos faz agir como autômatos. Era tão automático virar imediatamente à direita na saída da estação que, mesmo quando o caminho ficou ruim, continuou a andar por ele como se não houvesse alternativa. Isso fez com que pensasse:

- Quantas vezes não fazemos exatamente isso em nossa vida?

Percebeu, por experiência própria, que, sem se aperceber, alguém pode passar, sem nenhuma necessidade, por situações incômodas, sem ao menos tentar qualquer mudança.

- Às vezes basta olhar para o outro lado e mudar de calçada, concluiu.

        E foi pensando assim que chegou sorridente e com os sapatos limpos ao seu local de trabalho. Entrou no escritório com a sensação de ser a criatura mais esperta do mundo, simplesmente porque teve a ousadia de mudar o foco e achar uma alternativa.


Roberto Policiano