quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Pingo

Série: Quem você pensa que é?



Pingo



                       

            Cinco horas da manhã, como fazia parte de sua rotina, foi até o banho. O jato de água morna em sua cabeça deu-lhe uma sensação de bem-estar. Sorriu, mas sua alegria durou pouco. Um pingo de água gelada bateu em sua testa. Depois um segundo e um terceiro. E, para seu desgosto, a cada três segundos aquela experiência se repetia. Saiu de debaixo do chuveiro o mais rápido que pôde a fim de evitar aquela sensação desagradável. O bom humor com que acordara se dissipou com o ocorrido. Preparou-se para o trabalho com a cara fechada e um bico desse tamanho. Nem o trânsito fluindo rapidamente foi suficiente para acalmar seus ânimos.

            Ao chegar ao escritório a recepção foi com sorrisos e cumprimentos amigáveis, que foi retribuído do mesmo modo. Quando finalmente entrou em sua sala e se preparava para mais um dia de rotina, o incidente da manhã voltou a tomar conta de seus pensamentos, mas não por muito tempo. De repente pôs-se a refletir sobre o que aconteceu e a sua reação. Havia uma cachoeira de água morna que caía do chuveiro, porém apenas alguns pingos de água gelada. Mas aquelas poucas gotas tiveram o poder de neutralizar a torrente quentinha, a ponto de causar-lhe aborrecimento.

            - Se a minha concentração permanecesse na água morna – raciocinou - aqueles pingos não causariam nenhum efeito, mas quem consegue fazer isso?

            Acreditava que qualquer pessoa, independentemente de sua procedência, se incomodaria com aquelas poucas gotas de água gelada e não levaria em conta as centenas de pingos mornos.

            Sorriu – agora já conseguia sorrir – ao lembrar-se de sua reação.

            Quantas vezes – pensou - não cometemos esse mesmo erro na vida, não só na hora do banho, mas em qualquer situação? Temos a tendência de focalizarmos no que é desagradável na vida enquanto uma infinidade de coisas boas está acontecendo. É como se ficássemos cegos e surdos por tudo de bom que recebemos para direcionar toda a atenção para algo que - na maioria das vezes - nem é tão importante assim. Não nos contentamos com noventa e nove por cento, queremos tudo, mesmo sabendo que quase nunca é possível isso. Se tão somente parássemos para pensar! Com toda a certeza seríamos bem mais felizes.          Determinou a si mesmo dar atenção especial a esse assunto.

            Trinta minutos depois a copeira entrou com o seu lanche que, como sempre, estava caprichado. Um delicioso pão ainda quentinho, salpicado de queijo ralado tostado e um magnífico recheio, que seria regado com um suco natural de laranja. Deu a primeira mordida no alimento e descobriu que o sabor estava melhor do que o visual. Já a bebida decepcionou, visto que a temperatura dela não estava agradável. Quis se estressar, mas lembrou-se do pingo gelado.

            - Concentre-se no lanche, disse para si, e continuou, se o suco não está gelado o suficiente é só colocar gelo.

            Pegou o telefone para chamar a copeira, mas antes de ligar ouviu uma batida na porta.

            - Pode entrar.

            - Desculpe-me, mas esqueci do gelo de seu suco. Aqui está ele.

            - Agradeço muito pela sua atenção, disse numa voz amigável.

            Depois de acertar a temperatura da bebida ao seu gosto, tomou um bocado e, antes de dar outra mordida no lanche, fez questão de prestar atenção ao sabor agradável da bebida gelada.

            - Foi tão simples a solução, pensou, porque não fazemos isso sempre?


                                                                  Roberto Policiano

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