quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Feijões

Série: Quem você pensa que é?


Feijões





Quando dona Naná ia escolher feijões, todos já sabiam e abriam espaço para ela trabalhar tranquila. A mesa era limpa e desinfetada em toda a sua extensão, pois era ali que os grãos passariam por uma rigorosa escolha.

Depois de enxaguar e secar a embalagem muito bem, as sementes eram despejadas cuidadosamente numa vasilha. Outro recipiente era colocado ao lado direito para receber os grãos selecionados.

Após sintonizar o rádio em sua estação preferida, a cozinheira colocava uma almofada na cadeira e, ajeitando-se confortavelmente, começava a pegar cada unidade de feijão a fim de fazer uma verdadeira varredura em toda a superfície dele com o objetivo de achar qualquer mácula que o eliminasse como comestível. Se passasse pela inspeção era colocado no espaço dos aprovados. O processo se repetia até o último elemento. A parte rejeitada era descartada imediatamente, ao passo que os selecionados passavam por uma lavagem minuciosa e eram deixados de molho por um período de tempo.

Enquanto isso os temperos eram preparados com o mesmo cuidado. A panela de pressão já estava com a quantidade de água suficiente e na temperatura exata quando os feijões escorridos e os condimentos eram colocados ali e deixados a esquentar até que levantasse fervura. Então a panela era fechada e o alimento cozido.

O aroma invadia todo o recanto da casa e traziam todos à mesa. As expressões dos comensais indicavam a satisfação dos convidados. O assunto girava em torno da qualidade e do sabor daquela delícia feita com tanto capricho.

Em outra casa, não muito longe do local, feijões também fervilhavam numa panela de pressão. Nesse caso, porém, a cozinheira estava revoltada com a quantidade de sujeira que teve de retirar ao preparar a refeição. ‘Aquilo era um desperdício, ou melhor, um roubo’, esbravejava a mulher. Há muito ela desconfiava de que todo aquele 'lixo' era colocado propositadamente para diminuir a quantidade do produto, tanto é que, previdente como se achava, passou a guardar “a prova do roubo” para mostrar a quem quisesse. O que ela não percebia é que ninguém queria ver ou ouvir a respeito.

Seu feijão, com respeito à qualidade e ao sabor, nada ficava a dever ao primeiro. Aliás - só para ficar registrado - as duas senhoras compravam o produto do mesmo fornecedor e no mesmo lugar, de modo que eram os mesmos. Embora delicioso, não havia prazer em degustar o alimento, tanta era a ênfase à escória que se achava na embalagem.

Roberto Policiano

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