quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Ser si mesmo

Série: Quem você pensa que é?


Ser si mesmo

           

            Olhou com satisfação para o seu novo lar. Sempre quis uma decoração naquele estilo, mas a permanência na casa dos pais impedia satisfazer esse desejo. Caminhou lentamente em cada cômodo do apartamento e observou atentamente cada detalhe, como se fosse a primeira vez que se deparava com eles. Um não sei quê de satisfação invadiu sua alma e um sentimento de realização fez com que um largo sorriso enfeitasse seu rosto. Pela primeira vez sentiu uma sensação de liberdade. Finalmente se sentia livre das amarras que impediram que se manifestasse seu eu em toda sua plenitude. E, para se assegurar de sua total autonomia em gerenciar sua própria vida, determinou viver do modo oposto ao que lhe fora ensinado desde a sua infância.

            Anos depois, apesar de se apegar com afinco à sua decisão, um sentimento de vazio ainda fazia parte de sua vida. O incômodo era tão intenso que o exteriorizou para uma pessoa achegada. Essa, depois de ouvir atentamente a tudo o que lhe fora dito, refletiu por um momento e respondeu:

            - Você continua com as amarras que pensa ter se libertado.

            - Como assim?

            - Você continua com as referências de seus pais.

            - Isso é um absurdo, pois eu fiz questão de ser exatamente o oposto deles!

            - Percebeu o que você acabou de dizer?

            - Não estou entendendo.

            - Vou repetir o que você disse: “Sou exatamente o oposto deles”. Sem notar isso, os referenciais de seus pais continuam dominando sua vida.

            - Como assim?

            - Quando você determinou a si ser o oposto de seus pais, esqueceu-se de ser você.

            - E o que eu tenho que fazer?

            - Seja você mesmo! Para isso é necessário descobrir quem você é, e isso só é possível quando se abandona todos os referenciais.

            Já em casa, enquanto se servia de chá, torradas e requeijão, perguntou-se: 
     
- Quem sou eu, afinal?

Roberto Policiano

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