Saturação
A noite não tardaria a chegar. Thomaz caminha em direção à
sua casa, como tem feito nos últimos quinze anos. Como trabalhador da
construção civil, cumpre sua jornada das sete horas da manhã até às dezesseis
horas. Às onze horas vai, junto com seus companheiros de serviço, ao refeitório
improvisado no canteiro de obras a fim de almoçar. Depois de esperar alguns
minutos na fila, pega sua marmita e se dirige para a última mesa, onde ele e os
amigos conversam enquanto comem.
Naquela tarde, porém, ele pareceu alheio ao que acontecia
em sua volta. Não percebeu o movimento das pessoas; não viu quando um amigo lhe
acenou na porta do bar onde costuma tomar um trago após o expediente; não ouviu
que sua música preferida estava tocando na loja de discos; não notou o olhar
inquieto de Catarina, balconista da padaria do Vieira, que sempre fica espreita
quando ele passa por lá. Não demonstrou a mesma pressa habitual das tardes de
quarta-feira, dia em que ele se reúne com os amigos na casa do Barbosa para o
jogo de cartas.
Alguma coisa está diferente naquele jovem senhor,
geralmente muito vivaz. O andar autômato não é o andar costumeiro dele. O olhar
sem brilho que carrega não condiz com os seus costumeiros olhos brilhantes. A
sisudez que desenfeita o seu rosto nunca foi visto antes pelos seus amigos. A
silhueta que perambula pelas calçadas nem de longe lembra o animado trabalhador
com o andar cheio de ginga, arrancando risos por onde quer que vá, mexendo com
um, animando outro, provocando um terceiro por brincadeira. Apesar do serviço
pesado suportado durante todo esse tempo, ele jamais reclamou, antes, era a alegria
em pessoa. Coisa boa - muito boa mesmo - é estar no mesmo ambiente onde ele
está. Era sempre animação, alegria, otimismo.
Não, o Thomaz não está bem. Algo está errado com ele, mas
o quê? Esse era o tema da conversa dos amigos que o seguiam de longe com os
olhos. Até que Bento, o mais experiente da turma, disse convicto:
- É saturação; disse em poucas palavras, como sempre
fazia.
- Saturação? Como assim? Questionou Berimbau, o mais novo
da turma.
- É saturação; confirmou Bento, e calou-se.
Todos esperaram pacientemente a explicação do mais sábio
do canteiro de obras. Afinal, quem já havia trabalhado ininterruptamente por
quarenta anos em construção, devia perceber o que estava acontecendo.
Conhecendo o Bento, os companheiros sabiam que a resposta
viria após alguns minutos de espera. E veio. Balançando o indicador de cima
para baixo compassadamente, reafirmou:
- É saturação! Isso já aconteceu comigo mais de uma vez,
e com muitos dos meus companheiros. De tanto trabalhar com pó e barulho o dia
inteiro, chega um momento em que a gente satura, disse ele, parando para tomar
fôlego, e, depois de um longo suspiro, continuou:
- O dia chega, para alguns mais cedo, para os fortes mais
tarde, em que acontece a saturação.
- E o que é saturação? Insistiu Berimbau.
- Observem o Thomaz, disse Bento apontando para o amigo.
Parece que ele não ouve nem vê coisa alguma. É como se ele estivesse com os
olhos cheios de pó e os ouvidos cheios de ruído. Sei muito bem o que é isso,
disse ele balançando a cabeça afirmativamente, e concluiu, é saturação!
- É saturação! Murmuraram todos pensativos enquanto
repetiam o gesto do Bento.
Roberto Policiano
Roberto Policiano
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