Tio Bento
Dezessete horas e
quarenta e cinco minutos. A campainha soa. Rosinha foi atender. Ao abrir a
porta e olhar para o portão, um desânimo tomou conta imediatamente dela. Era o
tio Bento que chegara. Um segundo e alguns centésimos depois se recompôs e foi
em direção à visita.
Cumprimentos
de praxe e o convite para entrar. Já na sala uma poltrona é indicada e o
recém-chegado a ocupa. Alguns minutos depois uma xícara de café é serviço,
acompanhada de biscoitos de amigo de milho. As novidades são colocadas em dia
entre uma bebericada e uma mordiscada.
A
pequena Adelaide, de apenas sete anos de idade, entra na sala e, depois de
cumprimentar o tio avó com um beijo no rosto e se incomodar com a barba dele por
fazer, que o parente insistiu em esfregar no rosto dela, escapou do sacrifício
e sentou-se ao lado da anfitriã.
Terminada
a introdução de praxe o visitante iniciou sua longa lista de reclamações de
pessoas a que tem contato. Em casa tem problemas com diversos membros da
família; na região onde mora alguns vizinhos o perturbam; frequenta uma
associação cultural, mas está prestes a abandoná-la porque algumas pessoas são
insuportáveis demais; no emprego alguns colegas de trabalho tentam escorar nele
e o chefe não toma nenhuma providência para resolver a situação.
Então
a garota Adelaide teceu o seguinte comentário:
- Como o senhor é azarado, tio Bento! Em todo o lugar
onde o senhor está tem sempre alguém o incomodando. Parece que o senhor não tem
sossego, não é mesmo?
O homem respondeu com um sorriso forçado e alguns
murmúrios e, talvez, intimidado pelo comentário inocente da sobrinha, ficou
mais alguns minutos e, movido por uma lembrança conveniente de uma obrigação
inadiável, despediu-se e seguiu seu rumo.
Enquanto caminhava, o comentário da criança gritava em
sua mente: “Onde o senhor está...”; “Onde o senhor está...”. Em meio a tal
“gritaria” um “cochicho interior” prevaleceu sobre o falatório. Chegou a casa
determinado a reavaliar-se.
Roberto Policiano
Nenhum comentário:
Postar um comentário