quarta-feira, 15 de abril de 2020

Tio Bento

Série - Quem você pensa que é?

Tio Bento


Dezessete horas e quarenta e cinco minutos. A campainha soa. Rosinha foi atender. Ao abrir a porta e olhar para o portão, um desânimo tomou conta imediatamente dela. Era o tio Bento que chegara. Um segundo e alguns centésimos depois se recompôs e foi em direção à visita.

Cumprimentos de praxe e o convite para entrar. Já na sala uma poltrona é indicada e o recém-chegado a ocupa. Alguns minutos depois uma xícara de café é serviço, acompanhada de biscoitos de amigo de milho. As novidades são colocadas em dia entre uma bebericada e uma mordiscada.

A pequena Adelaide, de apenas sete anos de idade, entra na sala e, depois de cumprimentar o tio avó com um beijo no rosto e se incomodar com a barba dele por fazer, que o parente insistiu em esfregar no rosto dela, escapou do sacrifício e sentou-se ao lado da anfitriã.

Terminada a introdução de praxe o visitante iniciou sua longa lista de reclamações de pessoas a que tem contato. Em casa tem problemas com diversos membros da família; na região onde mora alguns vizinhos o perturbam; frequenta uma associação cultural, mas está prestes a abandoná-la porque algumas pessoas são insuportáveis demais; no emprego alguns colegas de trabalho tentam escorar nele e o chefe não toma nenhuma providência para resolver a situação.

Então a garota Adelaide teceu o seguinte comentário:

            - Como o senhor é azarado, tio Bento! Em todo o lugar onde o senhor está tem sempre alguém o incomodando. Parece que o senhor não tem sossego, não é mesmo?

            O homem respondeu com um sorriso forçado e alguns murmúrios e, talvez, intimidado pelo comentário inocente da sobrinha, ficou mais alguns minutos e, movido por uma lembrança conveniente de uma obrigação inadiável, despediu-se e seguiu seu rumo.

            Enquanto caminhava, o comentário da criança gritava em sua mente: “Onde o senhor está...”; “Onde o senhor está...”. Em meio a tal “gritaria” um “cochicho interior” prevaleceu sobre o falatório. Chegou a casa determinado a reavaliar-se. 

Roberto Policiano

Nenhum comentário:

Postar um comentário