quarta-feira, 29 de julho de 2020

Retomada

série: Psicologicamente poético


 

Retomada

 

Em uma retrospectiva

Viu-se em sua meninice.

Notou o sistema a lhe rodear,

Engolindo sofregamente,

Segundos, minutos, horas,

Dias, semanas, meses e anos.

E o que lhe parecia eterno

Evaporou-se como fumaça no ar.

Deu-se conta do turbilhão

Onde estivera todo esse tempo.

Examinou-se e, por um instante,

Sentiu-se resto, raspa,

Do que fora antes.

Sua carne, agora amarrotada;

Seus cabelos frágeis, ralos

E quase sem pigmentação;

Suas mãos trêmulas e fracas;

Suas pernas débeis e vacilantes-

Eis o seu saldo

Na conta da vida.

O sentimento de injustiça

Quis abalar-lhe,

Mas afastou isso de si.

Se havia resto,

Se havia raspa,

Havia vida,

Vida havia;

E era sua,

Estava ali

Ao seu dispor

Para dividir

Com quem quisesse.

Assim, ergueu-se,

Livrou-se do pó,

E caminhou.

Se o passo é firme

Ou vacilante,

O que importa?

Se a força mingua,

Se a vida finda,

Não interessa.

E decidiu

Viver a vida

Sem mais ter pressa.

Numa ousadia

Tomou as rédeas

Do próprio tempo.

Cada segundo,

Minuto, ou hora,

Sim, cada dia,

Semana, mês, ou ano,

Seria seu,

Esse era o seu plano.

E pressentiu o turbilhão

De onde escapara

A reclamar-lhe

Esse controle.

Mas desdenhou

Esse pedido

E, confiante,

Seguiu em frente.

E eu me arrisco

A lhe dizer:

Seguiu contente!



Roberto Policiano

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