Série: Quem você pensa que é?
Fluir da vida
Quando levantou os olhos se deparou com uma cena que o deixou perturbado. Viu um de seus amigos de infância descendo a ladeira apoiando-se em uma bengala. Não podia ser verdade; Benjamim; como? Lembrou-se de quando os dois brincavam juntos com os outros meninos nos tempos de meninice e balbuciou:
- Parece que foi ontem!
A
visão do colega naquela situação o levou a refletir sobre as condições dos outros
conhecidos. Jacinira, por incrível que pareça, já era avó. Zé Biló se aposentou
já fazia alguns anos. O Chinéu desapareceu e ninguém nunca teve notícias suas.
Dezanélia, após o casamento, mudou-se para outro Estado e não se houve falar
dela. Bozito perdeu quase todos os cabelos, sobrando-lhe, para consolo, apenas
os fios laterais. Janite está com a cabeça branca, parecendo uma bola de
algodão doce. Quatro deles não aguentaram chegar até aquele momento e já não
existem mais, a não ser na memória dos parentes e amigos mais achegados. Então
sua mente deu um pulo e chegou até os famosos de sua época. Aqueles que faziam
papéis de galã das novelas e ainda atuavam, são os avós nas histórias de hoje.
As músicas de seu tempo, que costumavam tocar em todas as rádios, há muito não
se ouvem mais. Quem quiser escutá-las, terá que comprar um CD, se conseguir
achar algum à venda, pois já é uma tecnologia ultrapassada, embora tão nova.
Voltou
a si e às coisas comuns. Seu bairro, por exemplo, como havia mudado! Girou a
cabeça para a direita e para a esquerda a fim de ter uma visão panorâmica do
lugar. Tudo estava diferente - e muito.
Teve
sua reflexão interrompida por um grupo de jovens que subia a ladeira em direção
ao colégio. Como se aquilo fosse a coisa natural a fazer, comparou aqueles
estudantes com os colegas de escola de sua época. Tudo era muito diferente - as
roupas, os calçados, o corte dos cabelos, os adereços, as conversas.
Lembrou-se
dos empórios de antigamente e os comparou com os supermercados de agora. Isso o
levou, naturalmente, a relembrar das marcas que faziam parte de “seu tempo” e
que já não se encontram nas prateleiras. A questão não é se eram melhores ou
piores, mas, sim, o fluir do tempo, se bem que, como sustentam alguns
filósofos, o tempo não flui. ‘Seja como for’, pensou teimosamente, ‘o tempo
passou, ou nós passamos, pois, para ele, era tudo a mesma coisa’.
Olhou
para si mesmo - seus braços, suas mãos, suas pernas, seus pés, seus calçados,
suas roupas, e concluiu:
-
Não sou o mesmo, embora, distraído pelos afazeres da vida, mudei e nem me dei
conta.
E,
como não podia perder tempo em pensar se é a vida ou o tempo que passa, ou
outro fenômeno que acontece, concluiu que viver é saborear cada momento no aqui
e agora. Assim, desemaranhou-se das amarras do passado e das incertezas do
futuro. Decidiu não se torturar por pensar que a vida, em outras épocas ou em
outro lugar, poderia ser muito melhor, pois -“PODERIA” – concluiu, dando ênfase
à palavra - é muito incerto para permitir que perturbe seja lá quem for!
Roberto Policiano
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