quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Coador

 Série: Quem você pensa que é?


Coador

 

 

Era domingo. A mulher queria dormir um pouco mais, mas seus filhos ficaram em volta dela na cama, pedindo para ela se levantar. Para ganhar mais um tempinho no leito, a mãe negociou dizendo que levantaria se alguém levasse café para ela. Continuando deitada, passou orientações para que seus rebentos conseguissem preparar a bebida. Primeiro pediu que um deles pusesse água para ferver. A criança perguntou:

- Mas como é que se faz isso?

E a mãe ensinou no estilo passo-a-passo.

- Pegue a chaleira, tire a tampa, coloque-a debaixo da torneira, abre-a para cair água, feche-a, coloque novamente a tampa, ponha a chaleira no fogão, pegue a caixa de fósforo, tire um palito, risque do lado da caixa, vire o botão da boca do fogão, encoste o fogo na boca do fogão para acender.

A cria correu e executou seu trabalho com sucesso e voltou para a cama da mãe. Outra criança recebeu as próximas orientações:

- Pegue o mancebo e ...

- O que é mancebo?

- É onde se coloca o coador.

- Eu sei o que é - disse a irmã mais velha.

- Então vai você - respondeu a matriarca.

- Oba! - Exultou quem se livrou da tarefa.

- Oba coisa nenhuma - retrucou a mãe - você vai com ela para aprender. Depois de pegar o mancebo acha o bule e ...

- Eu pego o mancebo e ele acha o bule - sugeriu a menininha.

- Nada mais justo, assim cada um faz uma coisa - respondeu a mulher.

 Embora a matriarca fingisse não ver, observou o filho olhar emburrado para a irmã e dar um leve empurrão no braço dela, que retrucou por mostrar-lhe a língua.

Depois das missões cumpridas os dois voltaram para o lado da mestra, que passou as orientações seguintes para outra criança – esclarecimento: ela tinha muitos filhos.

- Agora você vai até a cozinha e coloque o bule dentro do mancebo.

Essa última ‘foi num pé e voltou no outro’. Como era bom ficar ao lado da mamãe! Principalmente porque ela trabalhava fora e só podia ficar rodeada de filhos aos domingos.

- Você - disse a mãe apontando para uma criança que ainda não havia dado sua contribuição - vai até lá e enfie o coador no mancebo.

Quando esta retornou e informou que fizera o trabalho, veio a próxima instrução para outro filho.

- Agora é a sua vez. Coloque três colheres de pó de café dentro do coador e fique esperando até começar a sair fumaça da chaleira.

Essa tarefa demorou um pouco mais para ser executada, mas, por fim, a criança retornou informando que a água já estava fervendo.

- Preste atenção que agora é você que vai. - Disse a mãe chacoalhando levemente o braço direito de um de seus rebentos - Pegue a chaleira e coloque água no coador. Quando esvaziar coloque água de novo. Repita isso até quase encher o bule de café. Depois coloque dez colheres de açúcar, mexe bem, e traz um pouco no copo para eu experimentar se está bom de doce. Mas tome muito cuidado, porque a água está fervendo e se cair em você vai queimar sua pele, doer muito, vamos ter que levar você ao hospital e o médico vai aplicar eu seu bumbum uma injeção deste tamanho!

E para mostrar de que tamanho seria a injeção, ela abriu bem os braços, deixando a criança com os olhos tão arregalados que ficaram desse tamanho! Nada podia ser tão convincente, pois o rebento foi cumprir sua obrigação com todo o cuidado que conseguiu arranjar.

Chegando à cozinha pegou a chaleira e despejou água no coador até enchê-lo e esperou. Mas o coador era de pano e o nível da água descia bem devagarzinho, e quem cumpria a tarefa estava com mais pressa do que o café, que caia preguiçoso na ponta debaixo fazendo um fiozinho bem fininho da bebida.

Depois de pensar por alguns segundos tentando achar uma via de escape para o café e, principalmente para si, a criança teve a ideia de ordenhar o coador, mas, lembrando-se do alerta que recebera e do tamanho da injeção, pôs sua mão com cautela em volta do coador fervente e, como percebeu o calor, retirou-a imediatamente. Esperou por mais alguns demorados segundos. Sua impaciência foi maior do que o seu medo, assim, apertou novamente o coador rapidamente, largando-o sem seguida. Como sobrevivera e, embora a mão esquentasse consideravelmente, pôde suportar a quentura, repetiu o gesto algumas vezes. Conforme ia ganhando coragem, o aperto da ordenha demorava um pouco mais. Sua mão ficou bastante aquecida, mas o resultado desanimou, pois, a bebida, com todo aquele aperto, continuava a fluir bem lentamente.

Examinou bem o coador atrás de uma nova ideia. Foi quando descobriu o problema – ‘esqueceram de furar o coador, por isso que a água está demorando para descer’ - concluiu com uma satisfação e uma felicidade maior do que a injeção inventada por sua mãe.

Para resolver a situação só precisava de uma tesoura, e na gaveta do armário havia uma. Foi até lá e voltou com ‘uma ferramenta na mão e uma ideia na cabeça’. 

Sorriu de satisfação enquanto assistia ao redemoinho revirar a borra do café e, sem perder mais tempo, despejou a água da chaleira até quase encher o bule com a bebida que preparou com sua genialidade.

Depois de adoçar o café com dez colheres de açúcar - conforme instruções recebidas -colocou um pouco dela em um copo e levou-a para sua mãe, com os olhos brilhando de contentamento e um sorriso imenso enfeitando seu rosto.

Assim que a mulher tomou o primeiro gole da bebida, afastou o copo de sua boca repulsiva e bruscamente e perguntou à criança como ela fizera o café. A pobre contou com todos os detalhes suas descobertas e a solução que dera ao problema.

Não teve jeito. A mãe teve que se levantar e consertar o coador e o café.

Hoje aquela criança concluiu, balançando a cabeça negativamente e com um sorriso sem graça desenfeitando seu semblante:

- Quantos outros coadores eu furei desde então!



Roberto Policiano

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