Série: Quem você pensa que é?
Coador
Era domingo. A mulher queria dormir um pouco
mais, mas seus filhos ficaram em volta dela na cama, pedindo para ela se
levantar. Para ganhar mais um tempinho no leito, a mãe negociou dizendo que
levantaria se alguém levasse café para ela. Continuando deitada, passou
orientações para que seus rebentos conseguissem preparar a bebida. Primeiro
pediu que um deles pusesse água para ferver. A criança perguntou:
- Mas como é que se faz isso?
E a mãe ensinou no estilo passo-a-passo.
- Pegue a chaleira, tire a tampa, coloque-a
debaixo da torneira, abre-a para cair água, feche-a, coloque novamente a tampa,
ponha a chaleira no fogão, pegue a caixa de fósforo, tire um palito, risque do
lado da caixa, vire o botão da boca do fogão, encoste o fogo na boca do fogão para
acender.
A cria correu e executou seu trabalho com
sucesso e voltou para a cama da mãe. Outra criança recebeu as próximas
orientações:
- Pegue o mancebo e ...
- O que é mancebo?
- É onde se coloca o coador.
- Eu sei o que é - disse a irmã mais velha.
- Então vai você - respondeu a matriarca.
- Oba! - Exultou quem se livrou da tarefa.
- Oba coisa nenhuma - retrucou a mãe - você vai
com ela para aprender. Depois de pegar o mancebo acha o bule e ...
- Eu pego o mancebo e ele acha o bule - sugeriu
a menininha.
- Nada mais justo, assim cada um faz uma coisa - respondeu
a mulher.
Embora a
matriarca fingisse não ver, observou o filho olhar emburrado para a irmã e dar
um leve empurrão no braço dela, que retrucou por mostrar-lhe a língua.
Depois das missões cumpridas os dois voltaram
para o lado da mestra, que passou as orientações seguintes para outra criança –
esclarecimento: ela tinha muitos filhos.
- Agora você vai até a cozinha e coloque o bule
dentro do mancebo.
Essa última ‘foi num pé e voltou no outro’.
Como era bom ficar ao lado da mamãe! Principalmente porque ela trabalhava fora
e só podia ficar rodeada de filhos aos domingos.
- Você - disse a mãe apontando para uma criança
que ainda não havia dado sua contribuição - vai até lá e enfie o coador no
mancebo.
Quando esta retornou e informou que fizera o
trabalho, veio a próxima instrução para outro filho.
- Agora é a sua vez. Coloque três colheres de
pó de café dentro do coador e fique esperando até começar a sair fumaça da
chaleira.
Essa tarefa demorou um pouco mais para ser
executada, mas, por fim, a criança retornou informando que a água já estava
fervendo.
- Preste atenção que agora é você que vai. - Disse a mãe chacoalhando levemente o braço direito de um de seus rebentos - Pegue a chaleira e coloque água no coador. Quando esvaziar coloque água de novo.
Repita isso até quase encher o bule de café. Depois coloque dez colheres de
açúcar, mexe bem, e traz um pouco no copo para eu experimentar se está bom de
doce. Mas tome muito cuidado, porque a água está fervendo e se cair em você vai
queimar sua pele, doer muito, vamos ter que levar você ao hospital e o médico
vai aplicar eu seu bumbum uma injeção deste tamanho!
E para mostrar de que tamanho seria a injeção,
ela abriu bem os braços, deixando a criança com os olhos tão arregalados que
ficaram desse tamanho! Nada podia ser tão convincente, pois o rebento foi
cumprir sua obrigação com todo o cuidado que conseguiu arranjar.
Chegando à cozinha pegou a chaleira e despejou
água no coador até enchê-lo e esperou. Mas o coador era de pano e o nível da
água descia bem devagarzinho, e quem cumpria a tarefa estava com mais pressa
do que o café, que caia preguiçoso na ponta debaixo fazendo um fiozinho bem
fininho da bebida.
Depois de pensar por alguns segundos tentando
achar uma via de escape para o café e, principalmente para si, a criança teve a
ideia de ordenhar o coador, mas, lembrando-se do alerta que recebera e do
tamanho da injeção, pôs sua mão com cautela em volta do coador fervente e, como
percebeu o calor, retirou-a imediatamente. Esperou por mais alguns demorados
segundos. Sua impaciência foi maior do que o seu medo, assim, apertou novamente
o coador rapidamente, largando-o sem seguida. Como sobrevivera e, embora a mão
esquentasse consideravelmente, pôde suportar a quentura, repetiu o gesto
algumas vezes. Conforme ia ganhando coragem, o aperto da ordenha demorava um
pouco mais. Sua mão ficou bastante aquecida, mas o resultado desanimou, pois, a
bebida, com todo aquele aperto, continuava a fluir bem lentamente.
Examinou bem o coador atrás de uma nova ideia.
Foi quando descobriu o problema – ‘esqueceram de furar o coador, por isso que a
água está demorando para descer’ - concluiu com uma satisfação e uma felicidade
maior do que a injeção inventada por sua mãe.
Para resolver a situação só precisava de uma tesoura, e na gaveta do armário havia uma. Foi até lá e voltou com ‘uma ferramenta na mão e uma ideia na cabeça’.
Sorriu de satisfação enquanto
assistia ao redemoinho revirar a borra do café e, sem perder mais tempo,
despejou a água da chaleira até quase encher o bule com a bebida que preparou com sua genialidade.
Depois de adoçar o café com dez colheres de
açúcar - conforme instruções recebidas -colocou um pouco dela em um copo e
levou-a para sua mãe, com os olhos brilhando de contentamento e um sorriso
imenso enfeitando seu rosto.
Assim que a mulher tomou o primeiro gole da
bebida, afastou o copo de sua boca repulsiva e bruscamente e perguntou à
criança como ela fizera o café. A pobre contou com todos os detalhes suas
descobertas e a solução que dera ao problema.
Não teve jeito. A mãe teve que se levantar e
consertar o coador e o café.
Hoje aquela criança concluiu, balançando a
cabeça negativamente e com um sorriso sem graça desenfeitando seu semblante:
- Quantos outros coadores eu furei desde então!
Roberto Policiano
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