quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Ser; ou ser

 Série: Quem você pensa que é?


Ser; ou ser



Num campinho de futebol improvisado em três terrenos baldios contíguos, um grupo de meninos jogava bola. Nenhum deles levava relógio, portanto, a partida não tinha hora para terminar. 

Depois de exaustiva disputa os atletas simplesmente deixaram cair seus corpos na grama que cobria o solo e esperaram pela recuperação. Nada se ouvia a não ser o movimento do ar das respirações aceleradas deles. 

Gotas de suor fluíam de todos os poros. Em pouco tempo as roupas deles ficaram grudadas em suas peles. Pernas e braços, abertos e abandonados molemente, totalmente suarentos, atraiam as lâminas gramíneas para si. 

Vários minutos se passaram. Os olhos ardiam com a invasão do fluído salgado provocado pelo cansaço. Cada um dos jogadores foi recuperando o fôlego paulatinamente. 

Uma preguiça agradável amoleceu cada fibra dos músculos dos garotos. A quietude e o sossego reinaram por um bom tempo até que um deles, contagiado pelo entusiasmo da peleja, comentou:

- Como é bom jogar bola!

- Nem me fale. Se a gente pudesse fazer só isso a vida inteira!

- Os jogadores profissionais só fazem isso.

- Que sorte a deles!

- Eu queria ser um deles.

- Eu queria ser o “A”.

- Eu prefiro ser o “B”.

- E eu o “C”.

- Meu Sonho é ser o “D”.

- Legal mesmo seria ser o “E”

E assim, cada um escolheu ser um jogador famoso, menos o Chico.

- E você, Chico, quem deseja ser?

- Eu quero ser eu mesmo!

- O quê? Você não deseja ser ninguém famoso?

- Claro que não!

- Por quê?

- Pra ser outra pessoa eu tenho que morrer!

- Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! 

- Ca! Ca! Ca! Ca! Ca! Ca! Ca! Ca! Ca! Ca! Ca! Ca!

- Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih!

- Ra! Ra! Ra! Ra! Ra! Ra! Ra! Ra! Ra! Ra! Ra!

 - Ri! Ri! Ri! Ri! Ri! Ri! Ri! Ri! Ri! Ri! Ri! Ri! Ri!

- Porque você acha isso, Chico?

E ele, com um leve e sutil sorriso quase imperceptível, com uma pequena puxadinha no canto esquerdo da boca, enigmatizando sua expressão facial, fincou os cotovelos na grama onde estava deitado e, com os indicadores esticados e os demais dedos encolhidos, girava suas duas mãos desenhando espirais no ar, ora em sentido horário, ora do lado contrário,  respondeu:

- Se eu for ser outra pessoa, quem vai ser eu mesmo?

E ficou, com as palmas das mãos viradas para o céu, esperando a reação dos amigos.

Desfez-se o alarido imediatamente.


Roberto Policiano


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