quarta-feira, 17 de março de 2021

BELISCÃO

 

          

            BELISCÃO

 

            O paciente entrou no consultório do psicólogo. Era a primeira sessão. Um senhor com seus oitenta e cinco anos de existência e duplamente vacinado contra a COVID 19. Ou seja, o caso foi recente. Ele ocupou a poltrona oferecida. Cruzou uma perna na outra. Segurou os joelhos com as mãos correspondentes. Depois de uns quatro segundos encarando o piso da sala, olhou para o profissional e disse a primeira frase:

            - Doutor eu vim aqui porque quero me livrar de um trauma de criança.

            - Trauma de quê?

            - De beliscão.

            - Fale sobre isso.

            - Eu ainda era pequeno. Desse tamaínho assim - esticou a mão com a palma voltada para baixo um pouco acima da altura do joelho - Não sei o que eu fiz ou falei de errado, mas minha irmã, quatro anos mais velha do que eu, lascou-me um beliscão no meu braço, bem aqui onde a gente toma injeções - apontou o lugar do braço com o dedo indicador - Essa foi a primeira, mas não a única vez que minha carne foi torcida sem dó nem piedade. Já fui beliscado por meu pai, minha mãe, meus irmãos, primos, colegas do bairro e até minha professora Teresinha. Durante os anos de minha vida, e foram muitos, pois já sou octogenário e já percorri mais da metade do caminho para ser promovido à nonagenário, já devo de ter levado mais de mil beliscões. Isso não é incrível, doutor?
            - Concordo que é incrível. Mas por que você acredita que isso se tornou um trauma.

            - Porque eu fiquei tão apavorado com essa experiência dolorosa, e algumas vezes sanguinolentas, pois a professora Teresinha tinha umas unhas desse tamanho - esticou os braços com as mãos abertas, palma em frente de palma, mantendo uma distância de trinta centímetros entre elas para indicar o tamanho das unhas - que fincava no lóbulo e apertava até uma unha encontrar-se com a outra. Tanto é que eu comecei a ver e ouvir beliscão onde eles não existem.
            - O senhor pode dar um exemplo real de como isso aconteceu?

            - Um só não, vários!

            - Fale sobre eles, por favor.

            - Pois não!  Só não vou falar com muito prazer, porque não tive nenhum. O primeiro caso aconteceu quando eu tinha de doze para treze anos. Eu fui numa biblioteca fazer um trabalho escolar. Lá eu descobri que havia uma gibiteca. Foi onde eu descobri as histórias em quadrinhos de Asterix. Meu problema foi com o amigo fortão dele Obelix, que eu pronunciei errado em voz alta dizendo ‘Obelichi’, e a atendente me corrigiu dizendo que o som correto era ‘Obelisqui’, que eu entendi "Eu belisco" e joguei o livro assustado e saindo correndo De lá.            Mais ou menos um ano depois eu ganhei um cachorrinho de raça do meu tio e no mesmo instante peguei ele pela coleira e fui dar uma volta na praça. A primeira pessoa que eu encontrei ficou admirado com o animalzinho e parou, ficou de cócoras e brincou um pouco com ele. Quando se levantou olhou para mim e disse: "É belo esse cão. ", mas eu entendi ele dizer: "Beliscão". Imediatamente peguei meu cãozinho e fugi daquele lugar. 

            Alguns anos depois, já sendo eu um rapaz, fui convidado por uns primos a passar um fim de semana pescando. Foi minha primeira experiência nisso. Fui instruído passo-a-passo desde a montagem da vara de pescar até a preparação da isca e da introdução dela no anzol. O resultado da minha primeira tentativa não foi bom, o que é compreensível. A isca que eu preparei ficou pelo menos três vezes maior do que o normal. Meu instrutor, para me estimular, bateu em meu ombro levemente e comentou: "Belo iscão", que eu entendi "Beliscão" e quase pulo no rio.

            Nesse ponto, o psicólogo tirou um pote de biscoito (canudinho de massa doce recheado com goiabada) da gaveta, abriu-o, e ofereceu ao paciente, que educadamente retirou apenas um e colocou na boca.

            - huumm, muito bom doutor!

            - Eu também gosto. Pode se servir à vontade enquanto você continua seu relato.

            - Obrigado, vou aceitar mais.

            E retirou outro biscoito, colocou na boca, saboreou-o, e retomou sua fala.
            - Já estava nos meus quarenta anos quando fiz a minha primeira viagem Internacional para desfrutar de minhas férias. No terceiro dia da programação turística fomos
conhecer uma cidade milenar histórica. A guia turística, muito competente em sua função, descreveu detalhadamente cada ponto do lugar. De repente ela anunciou com um largo sorriso enfeitando seu rosto: "Agora vamos conhecer um famoso obelisco ". Por pouco não pulei de uma ponte.


            A fim de recobrar o ânimo, o ancião estirou sua mão direita ao pote e a tirou de lá com três biscoito presos entre os dedos e os levou imediatamente à boca, que já os esperava escancarada. O ato se repetiu mais três vezes, sempre acompanhado de expressões de elogios e satisfação.

 

            - No dia seguinte do passeio turístico, doutor, fomos visitar o centro da cidade mais importante do país. Devia ter o triplo de visitantes que a região era capaz de atender. Ficamos esperando três horas, depois de ocuparmos a mesa, pela chegada do almoço. Para não abandonarmos o local depois da primeira hora de espera, os atendentes trouxeram algumas bandejas de petiscos como cortesia da casa, e, enquanto distribuíam as iguarias aos clientes famintos, um deles disse solícito: "Vão beliscando essas delícias enquanto a refeição não chega". Por pouco não abandonei a mesa e o restante das férias.


            Para se recompor de seu relato sofrido, o paciente enfiou a mão direita no pote e a retirou com seis biscoitos agarrados entre os dedos. Enquanto estes eram levados à boca escancarada, a mão esquerda entrava no pote para pescar outro lote de delícias. Expressões de prazer e satisfação foram feitas, mas pouco entendidas por terem sido feitas com a boca entupida de biscoitos, que foi várias vezes reabastecida com o vai e vem das mãos entre o pote e a boca.


            O psicólogo, com os braços apoiados sobre as pernas cruzadas, assistia com admiração e um sorriso intelectual a voracidade de seu paciente.


            Cinco minutos depois, estando o senhor satisfeitíssimo com a guloseima oferecida, sentiu-se tão bem que se admirou.

 

            - Sabe, doutor, eu nunca me senti tão bem. O que você tem a dizer sobre isso?

            - Que nem todo beliscão é ruim.

            - Como assim, doutor? Se foi por causa deles que eu busquei a sua ajuda.

            - E foi por causa de um deles que o senhor está se sentindo tão bem.

            - Explica isso direito, doutor.

            - Primeiro me diz o que você achou desse biscoito.

            - Achei muito bom. Mas o que isso tem a ver com beliscão.

 

            A resposta do psicólogo foi virar o pote e mostrar o rótulo que, para a surpresa do paciente, indicava que o nome do biscoito era BELISCÃO.

 

            - Como eu disse ao senhor, nem todo beliscão é péssimo. As primeiras experiências que você teve com eles infundiu em você um resultado ruim. A partir disso sua vida teve alguns sobressaltos com as lembranças ruins que o termo lhe proporcionou. E, como o senhor sabe muito bem, os termos paralelos, cuja sonoridade remeteu você aos momentos dolorosos em sua vida, não tinham nada a ver com o assunto. Assim como o nome beliscão dado ao doce não faz dele algo desagradável.

            - É verdade, doutor, muito obrigado por me ajudar a me livrar desse incômodo.
            - Na verdade você deve agradecer a outro doutor.

            - Qual doutor?

            - O doutor Egg.

            - Doutor Egg? Não o conheço.

            - Onde você mora?

            - Há duas quadras daqui.

            - Então você ainda irá conhecê-lo.

            - E o que o doutor Egg tem a ver comigo.

            - Foi ele que mandou escrever a sua história.

            - O doutor Egg me conhece?

            - Ainda não, mais vai conhecê-lo.

            - Se ele não me conhece, como ele pediu para você escrever a minha história?  Isso não tem nenhuma lógica.

            - Pode não ter para você, que não conhece todos os fatos.
            - Você que me desculpe, doutor, mas alguém que eu não conheço e que também não me conhece, não pode jamais pedir para alguém escrever a minha história. Isso tudo está me parecendo que é uma tremenda marmelada.
            - Marmelada não é, mas tem goiabada no meio!

 

 

Roberto Policiano

           

            

2 comentários:

  1. Kkkkkkkkkkvokobri. Kkkk como. Ri legal. Fala verdade apareceu algo parecido lá no consultório e vc enventou. Um pouco.... Muito bom mesmo 😃😃☺️

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