Pingo
Cinco horas da manhã, como fazia parte de sua rotina, foi
até o banho. O jato de água morna em sua cabeça deu-lhe uma sensação de bem-estar.
Sorriu, mas sua alegria durou pouco. Um pingo de água gelada bateu em sua
testa. Depois um segundo e um terceiro. E, para seu desgosto, a cada três
segundos aquela experiência se repetia. Saiu de debaixo do chuveiro o mais
rápido que pôde a fim de evitar aquela sensação desagradável. O bom humor com
que acordara se dissipou com o ocorrido. Preparou-se para o trabalho com a cara
fechada e um bico desse tamanho. Nem o trânsito fluindo rapidamente foi suficiente
para acalmar seus ânimos.
Ao chegar ao escritório a recepção foi com sorrisos e
cumprimentos amigáveis, que foi retribuído do mesmo modo. Quando finalmente
entrou em sua sala e se preparava para mais um dia de rotina, o incidente da
manhã voltou a tomar conta de seus pensamentos, mas não por muito tempo. De
repente pôs-se a refletir sobre o que aconteceu e a sua reação. Havia uma
cachoeira de água morna que caía do chuveiro, porém apenas alguns pingos de
água gelada. Mas aquelas poucas gotas tiveram o poder de neutralizar a torrente
quentinha, a ponto de causar-lhe aborrecimento.
- Se a minha concentração permanecesse na água morna –
raciocinou - aqueles pingos não causariam nenhum efeito, mas quem consegue
fazer isso?
Acreditava que qualquer pessoa, independentemente de sua
procedência, se incomodaria com aquelas poucas gotas de água gelada e não
levaria em conta as centenas de pingos mornos.
Sorriu – agora já conseguia sorrir – ao lembrar-se de sua
reação.
Quantas vezes – pensou - não cometemos esse mesmo erro na
vida, não só na hora do banho, mas em qualquer situação? Temos a tendência de
focalizarmos no que é desagradável na vida enquanto uma infinidade de coisas
boas está acontecendo. É como se ficássemos cegos e surdos por tudo de bom que
recebemos para direcionar toda a atenção para algo que - na maioria das vezes -
nem é tão importante assim. Não nos contentamos com noventa e nove por cento,
queremos tudo, mesmo sabendo que quase nunca é possível isso. Se tão somente
parássemos para pensar! Com toda a certeza seríamos bem mais felizes. Determinou a si mesmo dar atenção especial
a esse assunto.
Trinta minutos depois a copeira entrou com o seu lanche
que, como sempre, estava caprichado. Um delicioso pão ainda quentinho,
salpicado de queijo ralado tostado e um magnífico recheio, que seria regado com
um suco natural de laranja. Deu a
primeira mordida no alimento e descobriu que o sabor estava melhor do que o visual.
Já a bebida decepcionou, visto que a temperatura dela não estava agradável.
Quis se estressar, mas lembrou-se do pingo gelado.
- Concentre-se no lanche, disse para si, e continuou, se
o suco não está gelado o suficiente é só colocar gelo.
Pegou o telefone para chamar a copeira, mas antes de
ligar ouviu uma batida na porta.
- Pode entrar.
- Desculpe-me, mas esqueci do gelo de seu suco. Aqui está
ele.
- Agradeço muito pela sua atenção, disse numa voz
amigável.
Depois de acertar a temperatura da bebida ao seu gosto,
tomou um bocado e, antes de dar outra mordida no lanche, fez questão de prestar
atenção ao sabor agradável da bebida gelada.
- Foi tão simples a solução, pensou, porque não fazemos
isso sempre?
Roberto Policiano
Só fatos!
ResponderExcluir