quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Vida

Série: Quem você pensa que é?


Vida



                       

            O menino passeava em sua bicicleta na ciclovia do parque quando deparou com um ciclista que vinha em sentido oposto. Chamaram-lhe sua atenção os seguintes dizeres que havia na camiseta do outro:

            A vida é ...

            Assim que o atleta passou por ele, o menino virou a cabeça imediatamente e percebeu que na parte de trás da camiseta estava a continuação da frase. O garoto desceu imediatamente da bicicleta, virou-a na direção oposta, montou-a novamente e pedalou o mais rápido que conseguiu. Depois de rodar por alguns minutos, desistiu de cansaço. Foi então que teve a ideia de virar-se novamente, pois assim encontraria o outro mais rápido.

            Cerca de três minutos depois os dois se cruzaram pela segunda vez. O menino só esqueceu que o encontro seria na mesma posição anterior, de modo que só pode ler o que já conhecia. Antes de desanimar, no entanto, mudou novamente de sentido e continuou a pedalar normalmente.

            - Quando ele passar de novo talvez eu consiga ler os dizeres nas costas da sua camiseta, pensou.

            O plano foi perfeito, mas o que o menino não sabia é que aquela era a última volta do outro ciclista, o que ele descobriu quando ele deu uma volta completa na ciclovia sem encontrá-lo.

            Aquela frase havia atiçado a curiosidade do garoto, de modo que, assim que chegou a casa, guardou sua bicicleta no lugar apropriado e informou a sua mãe que iria visitar o avô.

            Depois de cumprimentar os avós com abraços e beijos, como sempre fazia, disse:

            - Vovô Róbson, eu preciso da ajuda do senhor.

            - Vamos até a sala onde poderemos conversar melhor.

            Após se acomodar em sua poltrona preferida o ancião dirigiu-se ao neto:

            - E então Paulo Henrique, em que posso ajudá-lo?

            - Vovô o que é a vida?

            O senhor se maravilhou com a pergunta. Como pode uma criança de apenas nove anos de idade se preocupar com isso?

            - Uma pergunta muito interessante, Paulo Henrique. Desde quando você pensa nisso?

            - Desde hoje quando eu vi uma camiseta onde estava escrito: “A vida é ...” na parte da frente, mas não consegui ler a resposta que estava na parte de trás. Fiquei curioso e pensei que o senhor poderia saber a resposta.

            - Compreendo perfeitamente. Vá até a escrivaninha, por favor, e me traga duas folhas de papel.

            - Pois não.

            De posse das folhas o ancião ficou com uma e deixou a outra com o neto.

            - Pegue o lado do papel e junte-o com o outro lado da folha.

            - Pronto vovô. E agora, o que faço?

            - Faça a mesma coisa, agora com o lado maior.

            - Desse jeito?

            - Isso mesmo. Agora pegue um dos cantos do papel e junte-o ao canto oposto da outra ponta.

            - Devo cruzar na diagonal?

            - Muito bem, é isso que eu quero.

            - Olha como ficou.

            - Perfeito, Paulo Henrique. Agora faça o mesmo com os outros dois cantos.

            - Ficou parecido, vovô.

            - Parecido, mas não idêntico.

            - O que faço agora?

            - Faça um canudo pelo lado mais comprido.

            - Veja vovô; consigo enxergar o senhor pelo canudo.

            - Parece com uma luneta. Agora faça um canudo mais curto.

            - É só enrolar a folha pelo lado menor. Pronto vovô. Continuou uma luneta, só que menor.

            - Agora imagine alguma coisa diferente que pode ser feito com a folha.

            - Já sei! Vou fazer um canudo enrolando a folha na diagonal. Olha vovô, ficou um canudo maior do que o primeiro.

           -Percebeu quantas coisas diferentes foi possível fazer com a mesma folha de papel?

            - Percebi sim, e foi muito divertido.

            - Pois então, Paulo Henrique, isso ajuda a responder a sua pergunta?

            - Como assim, vovô? Não entendi nada!

            - A vida, como a folha de papel, é bastante flexível. Podemos fazer dela o que bem entendermos.

            - Continuo não compreendendo, vovô.

          - A vida será aquilo que fizermos dela, essa é a lição que podemos aprender da folha de papel. Por exemplo, quem encarar a vida como sendo uma droga, é exatamente isso que ela se tornará. Por outro lado, quem achar que ela é uma aventura, a vida será - para essa pessoa - isso mesmo. Se alguém encará-la como algo alegre, ela será simplesmente isso. Para os que a encaram como enfadonha, ela jamais será excitante. Assim, Paulo Henrique, a vida será do modo como a encararmos e não há nenhuma possibilidade de ela ser diferente a não ser que mudamos o nosso modo de enxergá-la. Onde está sua folha de papel?

            - Está aqui, vovô.

            - Amasse-a o tanto que você conseguir e depois a aperte bem.

            - Ficou como uma bolinha.

            - Abra a folha novamente e tente alisá-la.

            - Não consigo. A folha ficou um lixo.

            - Exatamente, Paulo Henrique, esta é a palavra certa – lixo. Assim, se encararmos a vida como tal, ela não será algo diferente. Conseguiu entender o que pretendi mostrá-lo?

            - Mais ou menos, vovô.

            - Então vamos lá. Responda-me o que é a vida.

            - Pelo que eu entendi, não existe uma resposta única. É isso?

            - É isso mesmo. E quem vai definir se a vida será boa ou ruim?

            - Pelo que o senhor me falou é a própria pessoa.

            - Muito bem! Podemos dizer então, sem sombra de dúvida, que cada um de nós é responsável pelo resultado da própria vida.

            - Será que era isso que estava escrito na camiseta daquele homem?

            - Talvez ele volte por lá.

            - Boa ideia! Amanhã voltarei ao parque. Obrigado, vovô.

            - Por nada, Paulo Henrique, por nada.

            - O que faço com esta folha amassada, vovô?

            - Faça com ela o que você quiser.

            - Até mais, vovô.

            - Só mais uma coisinha, por favor.

            - Sim, vovô.

            - Quero que leve essa folha de papel nova.

            - O que o senhor quer que eu faça com ela?

          - Quero que a guarde como recordação da conversa que tivemos. Nunca se esqueça de que o resultado da sua vida está em suas mãos.

Roberto Policiano

5 comentários:

  1. Parabéns tio! Gostei muito! Minha psicologa diz: você precisa decidir por si mesma e trocar os pensamentos por coisas boas, mesmo tendo raizes negativas totalmente entrincheiradas na sua mente.

    Pela formação que tive, pelos transtornos que tenho ou por mim mesma, seja lá qual for, ou se são todas, preciso sobrepor, de alguma forma, novas maneiras de enxergar as coisas. São 28 anos pensando negativamente sobre mim mesma e também sobre a minha vida e não vai ser fácil mudar toda essa percepção. Tento enganar meus pensamentos, mas ainda não consigo. Novamente, minha psicologa diz: não desista, uma hora será seu novo jeito de pensar; um novo “eu”. Acredito em vocês, agora é questão de tentar pacientemente.

    Obrigada pelo excelente e reflexivo texto.

    Sua sobrinha, Juliana Bernardes.

    ResponderExcluir
  2. Obrigado, Juliana, pelo elogio e por seu depoimento. Espero que esse espaço contribua, de alguma maneira, para quem visitá-lo. Volte sempre!
    Um grande abraço!

    ResponderExcluir
  3. Temos o privilégio de saber como usar nossas vidas da melhor maneira possível! Aplicar em nossas vidas os conselhos certeiros e amorosos que o nosso Criador nos deixou no nosso manual de vida é como se tivéssemos usando a infinita sabedoria Dele. O resultado? Felicidade...
    Abraço tio!
    Eduardo Policiano

    ResponderExcluir
  4. Prezado Eduardo, obrigado pelo excelente comentário. De fato, não existe melhor orientação do que a encontrada no manual da vida deixado pelo nosso Criador.
    Um grande abraço!

    ResponderExcluir
  5. Gostei muito do texto, pra mim a vida é a soma do hoje, e se nos esforçamos para contemplar nossa auto construção até HOJE, vamos perceber que temos muito a agradecer, E esse maravilhoso senso de gratidão é o melhor combustível da continuidade. Fil. 4:6
    Muito obrigado meu irmão por mais uma vez nos fazer pensar na dádiva maravilhosa da vida que nosso criador generosamente nos concedeu...

    ResponderExcluir