quarta-feira, 3 de junho de 2020

Sonhos

Série: psicologicamente poético



Sonhos



Chegou o dia da despedida.

Restava apenas recolher os seus sonhos

Para que não ficassem abandonados no fundo do armário.

Antes, porém, a fim de se preparar emocionalmente,

Tentou visualizá-los.

Ficou impressionado quando viu a todos eles:

Uns estavam retorcidos;

Outros ressequidos;

Havia também sonhos rotos;

Os cobertos de pó pelo tempo;

Os que foram realizados;

Alguns que foram sufocados pelas suas próprias mãos;

Também os violentamente arrancados pelas mãos de outrem;

Sonhos murchos;

Abandonados;

Conquistados;

Esquecidos...

Tais visões fizeram com que ele entendesse

Uma verdade até então dele escondida:

Aqueles sonhos não estavam em lugar nenhum!

Não podiam estar num lugar simbólico como um armário,

Nem estavam nele mesmo.

Senão, como se poderia explicar a visão contraditória

De um sonho arrancado?

Descobriu que há muito eles deixaram de serem sonhos.

Aquela sensação de presença não indicava que eles estavam nele,

Mas algo muito mais profundo -

Ao deixarem de serem sonhos,

Tendo ou não se realizados,

Cristalizaram-se e passaram a fazer parte dele.

Como tijolos, foram usados para construir o SER que ele se tornou.

Não, ele não era apenas a soma daqueles sonhos,

Era muito mais do que eles,

Pois sua existência é anterior a todos eles.

Porém, agora todos estavam contidos nele.

Ninguém, nem ele mesmo,

Pode desfazer tal construção.

Comparou-se com si mesmo entre o agora

E o dia que chegara,

E não teve dificuldade em perceber-se outra pessoa.

Não que seu ser original deixou de existir,

Pois ele continuava vivo,

Só que agora acrescido de todos os seus sonhos.

E então, tomado de um súbito espanto,

Sentiu a fragrância de novos sonhos que brotavam.

Alguns com contornos já bem definidos,

Outros ainda tímidos, quase imperceptíveis.

Para alguns deles tinha grandes expectativas

E estava disposto a apostar alto neles;

Quanto a outros, não visualizava qualquer futuro.

No entanto, ele estava ciente de que nas esquinas da vida

Escondem-se o inesperado

E os grandes sonhos podem resultar em nada,

Ao passo que aquele que quase não foi notado

Pode surpreender e dominar o cenário.

A visão destes últimos sonhos,

Ainda tenros,

Dá ao ser de agora

A certeza paradoxal

De que ele continua

Acordado.

Roberto Policiano

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