Sonhos
Chegou
o dia da despedida.
Restava
apenas recolher os seus sonhos
Para
que não ficassem abandonados no fundo do armário.
Antes,
porém, a fim de se preparar emocionalmente,
Tentou
visualizá-los.
Ficou
impressionado quando viu a todos eles:
Uns
estavam retorcidos;
Outros
ressequidos;
Havia
também sonhos rotos;
Os
cobertos de pó pelo tempo;
Os
que foram realizados;
Alguns
que foram sufocados pelas suas próprias mãos;
Também
os violentamente arrancados pelas mãos de outrem;
Sonhos
murchos;
Abandonados;
Conquistados;
Esquecidos...
Tais
visões fizeram com que ele entendesse
Uma
verdade até então dele escondida:
Aqueles
sonhos não estavam em lugar nenhum!
Não
podiam estar num lugar simbólico como um armário,
Nem
estavam nele mesmo.
Senão,
como se poderia explicar a visão contraditória
De
um sonho arrancado?
Descobriu
que há muito eles deixaram de serem sonhos.
Aquela
sensação de presença não indicava que eles estavam nele,
Mas
algo muito mais profundo -
Ao
deixarem de serem sonhos,
Tendo
ou não se realizados,
Cristalizaram-se
e passaram a fazer parte dele.
Como
tijolos, foram usados para construir o SER que ele se tornou.
Não,
ele não era apenas a soma daqueles sonhos,
Era
muito mais do que eles,
Pois
sua existência é anterior a todos eles.
Porém,
agora todos estavam contidos nele.
Ninguém,
nem ele mesmo,
Pode
desfazer tal construção.
Comparou-se
com si mesmo entre o agora
E
o dia que chegara,
E
não teve dificuldade em perceber-se outra pessoa.
Não
que seu ser original deixou de existir,
Pois
ele continuava vivo,
Só
que agora acrescido de todos os seus sonhos.
E
então, tomado de um súbito espanto,
Sentiu
a fragrância de novos sonhos que brotavam.
Alguns
com contornos já bem definidos,
Outros
ainda tímidos, quase imperceptíveis.
Para
alguns deles tinha grandes expectativas
E
estava disposto a apostar alto neles;
Quanto
a outros, não visualizava qualquer futuro.
No
entanto, ele estava ciente de que nas esquinas da vida
Escondem-se
o inesperado
E
os grandes sonhos podem resultar em nada,
Ao
passo que aquele que quase não foi notado
Pode
surpreender e dominar o cenário.
A
visão destes últimos sonhos,
Ainda
tenros,
Dá
ao ser de agora
A
certeza paradoxal
De
que ele continua
Acordado.
Roberto Policiano
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