Auditoria
Domingo à tarde. Chovia torrencialmente. Desistiu de sair,
mas o que faria? Sentou-se na poltrona da sala de estar; estirou as pernas;
esticou os braços longa e demoradamente; bocejou à vontade; largou o corpo
relaxado onde se encontrava e deixou-se ficar assim por vários minutos.
Sentiu a necessidade de fazer uma auditoria de sua vida.
Tirou o baú do recôndito de seu cérebro; eliminou as teias de aranha; espanou a
tampa a fim de livrá-la do pó e, com o coração acelerado, abriu o móvel bem
devagar.
Depois de examinar por um bom tempo o que encontrou,
resolveu contar as lágrimas estocadas. Foi um trabalho doloroso e corajoso. Ao
término da contabilidade teve uma triste surpresa – havia mais lágrimas do que
as suas próprias.
Cruzou as pernas, apoiou um dos cotovelos num dos braços
da poltrona, pousou o queixo na mão que estava apoiada, e deixou-se levar em
pensamentos. Os olhos - tristes e embaçados - logo ficaram cheios, o que
aumentou a sua coleção, pois concluíra que as lágrimas excedentes foram as que causara
em outrem. Refletiu um longo
tempo sobre a descoberta. Tentou reviver cada situação onde elas nasceram e
participou do longo jogo de absolver ou condenar a si.
Suspirou profunda e demoradamente e tomou a seguinte
resolução – a mais significativa de sua vida – daquele dia em diante se
esforçaria para não acrescentar nenhuma lágrima alheia ao seu baú.
Objetivara que, no futuro, quando fizesse nova auditoria
e encontrasse algumas lágrimas adicionais, deveriam ser apenas as suas.
Roberto Policiano
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