quarta-feira, 10 de junho de 2020

Auditoria

Série: Quem você pensa que é?



Auditoria

                       



            Domingo à tarde. Chovia torrencialmente. Desistiu de sair, mas o que faria? Sentou-se na poltrona da sala de estar; estirou as pernas; esticou os braços longa e demoradamente; bocejou à vontade; largou o corpo relaxado onde se encontrava e deixou-se ficar assim por vários minutos.

            Sentiu a necessidade de fazer uma auditoria de sua vida. Tirou o baú do recôndito de seu cérebro; eliminou as teias de aranha; espanou a tampa a fim de livrá-la do pó e, com o coração acelerado, abriu o móvel bem devagar.

            Depois de examinar por um bom tempo o que encontrou, resolveu contar as lágrimas estocadas. Foi um trabalho doloroso e corajoso. Ao término da contabilidade teve uma triste surpresa – havia mais lágrimas do que as suas próprias.

            Cruzou as pernas, apoiou um dos cotovelos num dos braços da poltrona, pousou o queixo na mão que estava apoiada, e deixou-se levar em pensamentos. Os olhos - tristes e embaçados - logo ficaram cheios, o que aumentou a sua coleção, pois concluíra que as lágrimas excedentes foram as que causara em outrem.           Refletiu um longo tempo sobre a descoberta. Tentou reviver cada situação onde elas nasceram e participou do longo jogo de absolver ou condenar a si.             
        Suspirou profunda e demoradamente e tomou a seguinte resolução – a mais significativa de sua vida – daquele dia em diante se esforçaria para não acrescentar nenhuma lágrima alheia ao seu baú.

            Objetivara que, no futuro, quando fizesse nova auditoria e encontrasse algumas lágrimas adicionais, deveriam ser apenas as suas.

Roberto Policiano

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