Série: Quem você pensa que é?
Atitude
Não cabia em si de tanto contentamento. Seria seu primeiro dia naquele emprego. Era tudo que sonhara. Para a sua felicidade seu novo local de trabalho ficava a quatro quadras da estação do metrô, trajeto esse que poderia ser feito a pé, contribuindo assim para a manutenção de seu condicionamento físico, coisa que fazia questão de mantê-lo. O fato de não ter que tirar o carro da garagem e enfrentar o trânsito infernal da cidade onde morava era outra vantagem bastante significativa. Não teria gasto nem com combustível nem com estacionamento, além de ficar com a consciência tranquila por não contribuir para a poluição do ar, nem para o aquecimento global. Além do mais, o período do novo trabalho não impediria de continuar a lecionar, pois isso era a sua verdadeira paixão. Não teria nem que atravessar a rua ao sair da condução, pois o lugar onde trabalharia ficava do mesmo lado do desembarque.
A
primeira semana foi uma maravilha. Tudo funcionou perfeitamente como planejara.
Na semana seguinte, porém, deparou-se com um inconveniente – o início da
construção de um edifício bem ao lado da estação do metrô.
A movimentação de trabalhadores e
máquinas se intensificou a cada dia. Desde então teve que dividir o espaço com
caminhões, trabalhadores, água, lama, materiais que chegavam constantemente e
pessoas que vinham e iam.
Não deixou se intimidar com a
mudança, mas procurou encarar tudo com naturalidade. Havia o incômodo de ter
que limpar os sapatos ao chegar ao escritório, mas, pensava, a situação
seria passageira.
Num
dia de chuva, quando deixava o local de trabalho e se dirigia para a estação do
metrô com todo o cuidado que a situação demandava, olhou para o lado oposto da
rua e não pôde acreditar no que via – uma calçada limpa e desimpedida à espera
de ser ocupada. Como não percebera isso antes?
No
dia seguinte, após desembarcar da condução, atravessou a rua e, enquanto
caminhava confortavelmente na calçada limpa e livre, não conseguia parar de
olhar para o outro lado da via onde as pessoas caminhavam com dificuldades.
Em
seu trajeto refletiu sobre o assunto e chegou à conclusão de que a rotina muitas
vezes nos faz agir como autômatos. Era tão automático virar imediatamente à
direita na saída da estação que, mesmo quando o caminho ficou ruim, continuou a
andar por ele como se não houvesse alternativa. Isso fez com que pensasse:
-
Quantas vezes não fazemos exatamente isso em nossa vida?
Percebeu,
por experiência própria, que, sem se aperceber, alguém pode passar, sem nenhuma
necessidade, por situações incômodas, sem ao menos tentar qualquer mudança.
-
Às vezes basta olhar para o outro lado e mudar de calçada, concluiu.
E foi pensando assim que chegou sorridente e com os sapatos limpos ao seu local de trabalho. Entrou no escritório com a sensação de ser a criatura mais esperta do mundo, simplesmente porque teve a ousadia de mudar o foco e achar uma alternativa.
Roberto Policiano
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