quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Aposentadoria

 Série: Quem você pensa que é?



Aposentadoria

 

 

Acordou com o barulho estridente do despertador. Levantou-se, travou o relógio e ia se preparar para o trabalho quando se lembrou de que era o primeiro dia de sua aposentadoria. Sentou-se na beirada da cama, passou as mãos no rosto e nos cabelos e continuou na mesma posição por vários minutos, pois não sabia o que fazer. Sua rotina - nos últimos quarenta anos - foi levantar-se ao som característico de todas as manhãs e, quase que automaticamente, se aprontar, pegar sua marmita, e sair em direção ao ponto de ônibus. Agora que estas ações não são mais necessárias, simplesmente não soube o que fazer.

Como não lhe sobrou alternativa, deu de filosofar – coisa de ociosos, que os antigos gregos podem comprovar muito bem -. Descobriu, na verdade sem muito esforço, que, nos últimos anos, sua vida não lhe pertenceu, pois, com a imposição das necessidades, a vendera para o mercado de trabalho. Assim, na maior parte de sua existência, funcionou como a uma máquina automática, sem haver necessidade de pensar no que fazer, posto que isto já estava determinado por aqueles que alugaram sua vida para tocarem os projetos deles. Acostumou-se a proceder como uma ‘coisa’, sem ter o trabalho de decidir o que fazer - como acontece com a grande maioria dos em sua volta. Tal situação nunca lhe causou qualquer angústia, pois presumira como sendo o modo de vida natural e esperado por e para todos.

 Agora que a sua vida voltou ao seu comando, não sabia o que fazer com ela. Sentiu certa estranheza com isso. Deu-se conta de que, embora pensasse que fosse senhor de si, fora administrado todo esse tempo por outros. Uma sensação de sequestro se apoderou de sua pessoa. Concluiu que vivera em cativeiro nos últimos quarenta anos. Foi até o espelho e encarou sua imagem demoradamente. Presenciou a marca deixada pelo tempo em seu rosto, cabelos, braços, mãos...

Recusou-se a continuar o autoexame. Voltou a sentar-se na beirada da cama. Ficou por alguns minutos a contemplar seus pés e pensou:

- Sempre achei que fosse eu que os comandava.

Deu um longo e profundo suspiro.  Assustou-se com o fato de que, sendo agora o senhor e dono de si, não tinha a menor ideia do que fazer.



Roberto Policiano

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