Desintoxicação
O
ônibus chegou à rodoviária.
Desceu
da condução e caminhou.
Atravessou
a cidadezinha devagar.
Na
única rua do centro a agência bancária.
Uma
farmácia e oito lojas formavam o comércio.
Logo
após, a praça com seu coreto;
Sete
árvores, três bancos, e um jardim completavam-na.
Avistou
a pequena ponte em formato de arco.
Sob
ela o riacho com o leito crivado de pedras.
A
água rolava barulhenta sobre os seixos.
Alcançou
a ruela íngreme.
Entre
a vegetação rasteira alguns casebres.
Várias
espécies de animais domésticos mordiscavam seus alimentos.
Pássaros
gorjeavam empoleirados em galhos.
Uma
enorme rocha à sua direita.
Contou
uma, duas, três; na quarta viela desviou-se para a esquerda.
O
ralo traço da sociedade ficou para trás.
Vinte
minutos de caminhada terminou num declive.
O
solo recoberto de pedregulhos exigiu passos cuidadosos.
Um
caminho serpenteante terminou num vale.
À
direita uma enorme jaqueira;
Atrás
dela uma casa avarandada;
À
esquerda um pequeno rio;
Após,
um prado extenso terminava numa montanha.
Girou
a taramela do portão, abriu-o e entrou.
Colocou
a bagagem na varanda,
Buscou
a chave no bolso do casaco,
Girou
a maçaneta.
A
porta rangeu quando empurrada;
O
odor de casa fechada escapou da prisão e
A
luz assumiu o lugar da escuridão.
Suspirou
profundamente e entrou.
O
dia foi de arrumação.
À
noite luz só das estrelas,
Também
da lua, que era a cheia.
Rádio
ou Televisão só se fosse a bateria.
O
cansaço levou ao sono
E
a noite foi tranquila.
A
madrugada trouxe com ela
Cantos,
gorjeios e outras falas de animais.
Os
galos comunicaram que havia vizinhança.
Felizmente
o fogão é a gás.
O
café desceu lentamente pelo coador de pano.
Reparou
que o pão que trouxera só dava para o dia.
Não
havia telefone na região.
O
local não recebia sinal de telefone celular.
Se
quisesse pão teria que voltar à cidadezinha.
A
lembrança do trajeto gerou desânimo.
Resolveu
terminar de ajeitar a casa.
O
almoço aconteceu tarde.
Aproveitou
o resto do dia e foi atrás da padaria.
O
segundo dia foi para descansar.
A
partir do próximo dia o sossego começou a incomodar.
Falta
de notícias, internet, redes sociais, gerou angústia.
O
que fazer da vida sem o cabo da conexão com o sistema?
Talvez
um passeio, mas só sabia fazer isso nos shoppings.
O
tédio incomodou durante a primeira semana.
Por
falta do que fazer resolveu andar pelo lugar.
Como
não havia pressa passou a reparar no que havia ali.
De
repente seus olhos foram abertos para ver;
Seus
ouvidos se destaparam para ouvir;
Suas
narinas se desbloquearam para cheirar;
Quis
apalpar para sentir as coisas e os seres;
Provou
uma frutinha agridoce.
Subiu
e desceu um morro enquanto explorava o ambiente.
Quando
caiu em si estava perto da casa vizinha.
Respondeu
ao sorriso que lhe fora dirigido.
Depois
dos cumprimentos o convite para um café.
Na
conversa conheceu um pouco da história da região,
Além
de personagens do passado e do presente.
Ficou
sabendo da festa que haveria na comunidade.
Foi,
conheceu pessoas e um pouco da cultura.
Descobriu
comidas, bebidas, danças e músicas.
Gradativamente
se desintoxicou da globalização.
Desconectou-se
do sistema e descobriu a vida.
Vida
que pensava existir somente em contos de fadas.
Roberto Policiano
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