quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Desintoxicação

Série: Psicologicamente poético


Desintoxicação

  

O ônibus chegou à rodoviária.

Desceu da condução e caminhou.

Atravessou a cidadezinha devagar.

Na única rua do centro a agência bancária.

Uma farmácia e oito lojas formavam o comércio.

Logo após, a praça com seu coreto;

Sete árvores, três bancos, e um jardim completavam-na.

Avistou a pequena ponte em formato de arco.

Sob ela o riacho com o leito crivado de pedras.

A água rolava barulhenta sobre os seixos.

Alcançou a ruela íngreme.

Entre a vegetação rasteira alguns casebres.

Várias espécies de animais domésticos mordiscavam seus alimentos.

Pássaros gorjeavam empoleirados em galhos.

Uma enorme rocha à sua direita.

Contou uma, duas, três; na quarta viela desviou-se para a esquerda.

O ralo traço da sociedade ficou para trás.

Vinte minutos de caminhada terminou num declive.

O solo recoberto de pedregulhos exigiu passos cuidadosos.

Um caminho serpenteante terminou num vale.

À direita uma enorme jaqueira;

Atrás dela uma casa avarandada;

À esquerda um pequeno rio;

Após, um prado extenso terminava numa montanha.

Girou a taramela do portão, abriu-o e entrou.

Colocou a bagagem na varanda,

Buscou a chave no bolso do casaco,

Girou a maçaneta.

A porta rangeu quando empurrada;

O odor de casa fechada escapou da prisão e

A luz assumiu o lugar da escuridão.

Suspirou profundamente e entrou.

O dia foi de arrumação.

À noite luz só das estrelas,

Também da lua, que era a cheia.

Rádio ou Televisão só se fosse a bateria.

O cansaço levou ao sono

E a noite foi tranquila.

A madrugada trouxe com ela

Cantos, gorjeios e outras falas de animais.

Os galos comunicaram que havia vizinhança.

Felizmente o fogão é a gás.

O café desceu lentamente pelo coador de pano.

Reparou que o pão que trouxera só dava para o dia.

Não havia telefone na região.

O local não recebia sinal de telefone celular.

Se quisesse pão teria que voltar à cidadezinha.

A lembrança do trajeto gerou desânimo.

Resolveu terminar de ajeitar a casa.

O almoço aconteceu tarde.

Aproveitou o resto do dia e foi atrás da padaria.

O segundo dia foi para descansar.

A partir do próximo dia o sossego começou a incomodar.

Falta de notícias, internet, redes sociais, gerou angústia.

O que fazer da vida sem o cabo da conexão com o sistema?

Talvez um passeio, mas só sabia fazer isso nos shoppings.

O tédio incomodou durante a primeira semana.

Por falta do que fazer resolveu andar pelo lugar.

Como não havia pressa passou a reparar no que havia ali.

De repente seus olhos foram abertos para ver;

Seus ouvidos se destaparam para ouvir;

Suas narinas se desbloquearam para cheirar;

Quis apalpar para sentir as coisas e os seres;

Provou uma frutinha agridoce.

Subiu e desceu um morro enquanto explorava o ambiente.

Quando caiu em si estava perto da casa vizinha.

Respondeu ao sorriso que lhe fora dirigido.

Depois dos cumprimentos o convite para um café.

Na conversa conheceu um pouco da história da região,

Além de personagens do passado e do presente.

Ficou sabendo da festa que haveria na comunidade.

Foi, conheceu pessoas e um pouco da cultura.

Descobriu comidas, bebidas, danças e músicas.

Gradativamente se desintoxicou da globalização.

Desconectou-se do sistema e descobriu a vida.

Vida que pensava existir somente em contos de fadas.

Roberto Policiano

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