quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Ser, ou ser

Série: Quem você pensa que é?


Ser; ou ser


           

           

            Num campinho de futebol improvisado em três terrenos baldios contíguos, um grupo de meninos jogava bola. Nenhum deles levava relógio, portanto, a partida não tinha hora para terminar.

            Depois de exaustiva disputa os atletas simplesmente deixaram cair seus corpos na grama que cobria o solo e esperaram pela recuperação. Nada se ouvia a não ser o movimento do ar das respirações aceleradas deles. Gotas de suor fluíam de todos os poros. Em pouco tempo as roupas deles ficaram coladas em suas peles. Pernas e braços, abertos e abandonados molemente, totalmente suarentos, atraíram as lâminas gramíneas para si.

Vários minutos se passaram. Os olhos ardiam com a invasão do fluído salgado provocado pelo suor. Cada um dos jogadores foi recuperando o fôlego paulatinamente. Uma preguiça agradável amoleceu cada fibra dos músculos dos garotos. A quietude e o sossego reinaram por um bom tempo, até que um deles, contagiado pelo entusiasmo da peleja, comentou:

            - Como é bom jogar bola!

            - Nem me fale. Seria tão bom se a gente pudesse só fazer isso a vida inteira!

            - Os jogadores profissionais só fazem isso.

            - Que sorte a deles!

            - Bem que eu poderia ser um deles.

            - Eu queria ser o “A”.

            - Eu prefiro ser o “B”.

            - E eu o “C”.

            - Meu Sonho é ser o “D”.

            - Legal mesmo seria ser o “E”

            E assim, cada um escolheu ser um jogador famoso, menos o Chico.

            - E você, Chico, quem deseja ser?

            - Eu quero ser eu mesmo.

            - O quê? Você não deseja ser ninguém famoso?

            - Claro que não!

            - Por quê?

            - Porque para ser outra pessoa eu teria que morrer!

                - Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!

                  - Ca! Ca! Ca! Ca! Ca! Ca! Ca! Ca! Ca! Ca! Ca!

            - Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih! Ih!

            - Ra! Ra! Ra! Ra! Ra! Ra! Ra! Ra! Ra! Ra! Ra!

             - Ri! Ri! Ri! Ri! Ri! Ri! Ri! Ri! Ri! Ri! Ri! Ri! Ri!

            - Por que você acha isso, Chico?

          E ele, com um leve e sutil sorriso quase imperceptível; com uma minúscula puxadinha no canto esquerdo da boca que deixou sua expressão facial enigmática, fincou os cotovelos na grama onde estava deitado, levantou um pouco o corpo, e, com os indicadores esticados e os demais dedos encolhidos, girou suas duas mãos desenhando espirais no ar, ora em sentido horário, ora do lado contrário, respondeu o seguinte:

            - Se eu for ser outra pessoa, quem vai ser eu mesmo?

            Depois de sua fala permaneceu com as palmas das suas mãos viradas para o céu.

           
Roberto Policiano

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